quarta-feira, 11 de novembro de 2009

De apagão e Uniban, tudo na hipocrisia

Nos últimos dias, a imprensa ganhou dois assuntos que, certamente, darão "pano pra manga" ainda por algum tempo.

O primeiro deles aponta para a hipocrisia verificada na Universidade Bandeirante (Uniban), onde uma aluna quase foi linxada por usar roupas curtas. Isso mesmo. Não fosse o imbróglio registrado pelos holofotes da mídia brasileira, em primeira mão, qualquer desavisado cairia na tentação de achar que o fato ocorrera num desses países orientais, de tradição muçulmana.

Mas não. Aconteceu aqui mesmo, logo ali, em São Bernardo do Campo, São Paulo. Confesso que ainda não entendi o que levou um bando de acadêmicos a atacar a moça, que trajava um microvestido vermelho. Moralismo exarcebado? Frustração coletiva? Sei lá. O fato é que, agora, a menina foi convidada para posar nua na Playboy. Mais ingrediente para fuxico. Se o objetivo era despertar os instintos selvagens dos colegas, com gestos sensuais, como chegou a ser divulgado, o tiro atingiu o alvo. De megera e vítima, a universitária passou a celebridade. Coisas do mundo dominado pela tecnologia.

O segundo rastro de pólvora, claro, é o apagão, que deixou no escuro nada menos que 18 estados brasileiros e parte do Paraguai, na noite dessa terça-feira. A oposição, diga-se de passagem, solta rojões. Finalmente uma rachadura considerável no casco do navio governista. Jornalistas saíram do casulo e não deixaram margem para dúvidas. "A culpa é do Lula". Numa visita a blogs de peso político, encontram-se textos de todo tipo. Desde o que equipara a fatalidade àquela amargada na gestão Fernando Henrique Cardoso, nos anos 2000 e 2001, até o que deseja analisar - em profundidade, viu? - os impactos políticos do blecaute na hidrelétrica de Itaipu.

E o pobre cidadão brasileiro, que trabalha diuturnamente, paga impostos até não poder, fica à mercê das jogadas políticas. O período eleitoral rumo a 2010 já começou faz tempo. Tudo, agora, na Terra de Santa Cruz, gira em torno do pleito previsto para outubro próximo. Noutras palavras, os políticos estão pouco ligando para o país. O que lhes importa é puxar o tapete do adversário, fazer cara de anjo e portar boas novas para a nação, de preferência soluções milagrosas.

E assim caminha a humanidade...

Apagão: o que Lula diz

Apagão: o que diz a oposição

terça-feira, 10 de novembro de 2009

De Lula para Alencar: "ainda bem que conseguimos chorar"

Do UAI: Uma homenagem feita segunda-feira pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) ao vice-presidente da República, José Alencar, reuniu no mesmo auditório o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e dois pré-candidatos ao Palácio do Planalto: o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), e a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff (PT). Alencar recebeu o título de presidente emérito da Fiesp. Carismático, protagonizou uma solenidade marcada por depoimentos emocionados, na qual o embate eleitoral de 2010 foi deixado de lado pelos atores da sucessão presidencial.

Ao discursar, Lula fez Alencar chorar copiosamente. “Eu também me pego chorando quando penso na vida, Alencar. Ainda bem que conseguimos chorar. Eu tenho medo das pessoas que não choram”, disse o presidente da República. Em seguida, fez o vice rir. “Eu lamento, Alencar, de não tê-lo conhecido bem antes. Se a gente tivesse se conhecido antes, eu não teria perdido tanta eleição.” Enquanto Lula discursava, Serra e a primeira-dama, Marisa Letícia, sentados lado a lado, conversavam no palco. Lula pediu para quebrar o protocolo e falar antes de Alencar.

“Acho uma injustiça me deixar para falar por último”, declarou. “Alencar é uma pessoa especial como político, pai e companheiro.” No meio da fala, o presidente convidou Alencar para ser seu vice em uma próxima eleição. Lula só pode, por lei, disputar o Planalto em 2014. “Alencar, a gente conta nos dedos, e eu tenho um a menos, quantos amigos verdadeiros nós temos. Eu posso dizer que você é um deles, principalmente na época das vacas magras.” Depois do discurso, Lula chorou.

Referência

Já José Serra disse que Alencar é um exemplo de empresário e político para o país. “É um homem de fé religiosa, um político admirável e humilde, além de um empresário competente. Ao lutar pela saúde de maneira forte, dá um exemplo para todos os brasileiros que lutam como ele.” José Alencar afirmou que estava muito emocionado após ouvir Lula. Ele agradeceu ao presidente, a Serra e ao presidente da Fiesp, Paulo Skaf, e prometeu fazer um discurso breve. “Ninguém vota em vice-presidente. Eu fui eleito por causa do Lula. Eu procurei não atrapalhar e acho que não atrapalhei porque fomos eleitos duas vezes”, disse.

“Tem valido a pena ter acompanhado de perto o seu trabalho, que trouxe prestígio ao Brasil em todas as nações. Eu nem acreditava, quando estávamos em campanha, em 2002, que o Lula viajaria. Achava que nunca assumiria a Presidência da República”. Durante a solenidade, Paulo Skaf relembrou a trajetória empresarial do vice-presidente, contando como ele herdou dos pais o talento para os negócios. “A competência era tanta que ele montou uma loja modesta de chapéus, tecidos e guarda-chuva com dinheiro emprestado pelo irmão mais velho”, contou Skaf, que deseja disputar o governo paulista pelo PSB.

Trajetória de sucesso

A trajetória de Alencar nos negócios começou aos 18 anos, quando inaugurou a loja popular A Queimadeira, no município de Caratinga. Em 1953, Alencar vendeu o empreendimento e mudou de ramo, passando à área de cereais por atacado, para em seguida montar com os irmãos a fábrica de macarrão Santa Cruz. Depois, passou a atuar no ramo têxtil, tornando-se o maior empresário do ramo na América do Sul. Hoje, a Coteminas tem 11 unidades, que fabricam e distribuem fios, tecidos, malhas, camisetas, meias, toalhas, roupões de banho e lençóis para o mercado interno, Estados Unidos, Europa e Mercosul. O título recebido por Alencar já foi dado a ex-presidentes da Fiesp, como Mário Amatto e Luiz Eulálio Vidigal Filho. Também já foi concedido ao empresário Antônio Ermínio de Moraes, do grupo Votorantim.

Durante a homenagem, foi apresentado um vídeo com imagens de Alencar e depoimentos de amigos e pessoas simples. Em seguida, houve um show da cantora Lecy Brandão, uma das preferidas do vice-presidente. Estavam ainda no evento a ex-ministra Marta Suplicy, o deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP), o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM), e o ministro da Ciência e Tecnologia, Sérgio Rezende.

Nota do blog: O operário e o empresário. Uma união inusitada que deu certo. De um lado, um dos presidentes mais populares da história (senão o maior de todos) e, de outro, um homem que, ao que tudo indica, nunca abandonou o caminho da integridade moral. Os dois fazem, juntos, um governo longe da perfeição - mesmo porque perfeição não existe -, mas voltado para as camadas mais empobrecidas. De 2003 a 2009, o Brasil conheceu a adoção de medidas sociais, até então desconhecidas de grande parte de sua população. Se houve falhas na gestão Lula / Alencar - e não tenha dúvidas de que foram muitas -, os acertos superaram, e muito, os erros cometidos. A grande prova é próprio Alencar, grande empresário, que não se cansa de elogiar o companheiro de chapa.

Foto: J. F. Diorio/AE

IPVA mais barato em 2010. Pena que seja só em São Paulo

sábado, 7 de novembro de 2009

Anjos da morte

Já faz alguns dias que senti vontade de escrever um pouco sobre a verdade. Talvez porque nós estejamos num mundo aparentemente repleto de obviedades, sobretudo a partir do desenvolvimento tecnológico absurdo que a humanidade alcançou, e as facilidades dela provenientes, seja importante o indivíduo tomar cuidado com afirmações que pretendem encerrar discussões.

Não creio que a verdade exista. O que há é sua construção, a partir de parâmetros pré-estabelecidos, imersos na cultura dos povos. Daí sua relativização e o perigo que decorre de conceitos que são ao termo imputados, como se fosse a coisa mais natural do mundo. Nestes casos, não se trata de verdades e, sim, de imposições com o claro objetivo de perpetuar a dominação dos fracos pelos fortes, por meio da manutenção do "status quo".

O fato pode ser observado no estudo da Ciência da Comunicação Social, que deveria contribuir para aumentar o senso crítico e que, ao contrário, aperta as correntes que prendem ou inibem a pessoa de raciocinar. Então, verdade e mentira se fundem de maneira escabrosa. O monstrengo que emerge da inusitada união alija do cenário qualquer reação oposta à meta de atender interesses inconfessáveis, na maioria das vezes de cunho político. Porque é da atuação pública que nascem honra, dignidade, compromisso e seriedade. Mas é dela também que surge o que de mais nojento existe, personficado na falta de caráter, na traição, no desrespeito à vida... Tudo em proveito próprio.

Os meios de comunicação - a imprensa em especial - enquadram o ambiente na perspectiva de linhas editoriais que não se importam com o bem comum. Defendem descaradamente os poderosos. Coloca-os em evidência quando a situação assim o requer. Da mesma forma, obscurecem-nos, fazem descer a penumbra sobre acontecimentos que poderiam interferir negativamente na execução de grandiosos projetos políticos. Tudo para escamotear evidências e solapar a capacidade de interpretar dos pobres mortais.

Sob esse aspecto, a mídia produz anjos da morte, reforça a hipocrisia e enaltece a mediocridade. Destrói e constrói supostas verdades com igual horror.

Presidente "analfabeto" bate recorde histórico e cria 12 universidades federais

Do Blog do Planalto: Com a sanção por parte de José Alencar, presidente da República em exercício, do projeto de lei que cria a Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa), o governo Lula atingiu nesta quinta-feira (5) a marca de 12 universidades criadas – recorde histórico no Brasil. A marca anterior era do presidente Juscelino Kubitschek, com 10 universidades federais.

O novo campus será inaugurado na primeira semana de dezembro e abrigará 1,4 mil universitários. Segundo Alencar, quando assumiu o governo teve uma conversa com o presidente Lula na qual ressaltava o fato de não terem curso superior: “O presidente Lula sempre diz assim: isso vai ficar para a história porque os brasileiros elegeram dois políticos que não têm curso superior. Por isso, nos compete fazer algo especial pela educação”.

O ministro Fernando Hadad (Educação) reforçou o discurso de José Alencar ao informar que até dezembro de 2010, o governo Lula terá inaugurado mais duas universidades. Hadad explicou também que o governo federal vem agindo em outras áreas, como a construção de escolas técnicas e creches. “O compromisso com a educação foi trazido para a agenda nacional e o País vem vivendo com os novos marcos”, explicou. Hadad informou também que houve a desvinculação da DRU o que permite ao Ministério da Educação contar com aporte de R$ 10 bilhões no próximo ano. Além disso, o Ministério terá mais R$ 5 bilhões proveniente do Fundeb.

A governadora do Pará, Ana Júlia Carepa, destacou a luta das lideranças políticas da região oeste do Pará para a aprovação do projeto de lei que resultou na nova universidade. “É a primeira universidade no interior da região amazônica”, disse. A UFOPA atua numa área com 18 municípios e um milhão de habitantes.

Vai-se o eterno galã

O presidente chamado de "analfabeto" mas que, até agora, superou em muito seus pares tidos como "intelectuais"

Do Estadão: O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, atribuiu as críticas que recebeu do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) na última semana ao "ódio" do tucano em relação a seu governo. "Eu compreendo o ódio que isso causa. Um intelectual ficar assistindo um operário que só tem o 4º ano primário ganhar tudo o que ele imaginava que iria ganhar e não ganhou por incompetência é muito difícil", disse ele, interrompido por palmas e um coro de "Olê Olê Olê Olá Lula" de mais de 800 pessoas que assistiam à abertura do 12º Congresso do PCdoB, no Palácio das Convenções do Anhembi, na zona norte da capital paulista.

O petista revidou também o ataque do compositor Caetano Veloso, que chamou Lula de "analfabeto" em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo. "Essa semana foi engraçada. Eu fui chamado de analfabeto, de ditador, por ter indicado a Dilma (Rousseff, ministra da Casa Civil) pelo ''dedaço'' e ganhei o título de estadista do ano", discursou Lula, em referência ao prêmio Chatham House 2009, que recebeu em Londres por seu empenho nas relações internacionais na América Latina.

O presidente ironizou o fato de não ter a "sapiência dos sociólogos", em uma referência à formação de Fernando Henrique, e dissociou a inteligência do saber acadêmico. "Tem gente que acha que a inteligência está ligada à quantidade de anos de escolaridade que você teve. Não tem nada mais burro que isso. A universidade te dá conhecimento. Inteligência é outra coisa."

Para o petista, na política, vale mais a inteligência do que o conhecimento. "Muito mais", enfatizou. "A inteligência de saber formar uma equipe não está no livro. Está na sensibilidade. A inteligência de tomar decisões não está no livro. Está no caráter e no compromisso do dirigente."

Lula comparou Fernando Henrique a um jogador de futebol que fica no banco de reservas torcendo para que um titular se machuque para poder entrar em campo. "Fernando Henrique tinha certeza de que nós seríamos um fracasso e de que ele poderia voltar por conta do meu fracasso", disse. "É isso que magoa. Eu lamento. O mundo não deveria ser assim."

Apesar de mostrar-se incomodado com as críticas do ex-presidente tucano, Lula tentou contemporizar: "A vida é assim. A pessoa fala o que quer, ouve o que não quer. A vida é dura." Ele disse ainda não guardar rancor em relação aos ataques. "Não sou homem de carregar mágoas por mais de cinco minutos. O mandato não permite que a gente fique brigando por coisas secundárias."

Hitler

O presidente afirmou sentir "pena" dos tucanos por eles planejarem um programa de treinamento de cabos eleitorais no Nordeste do Brasil com vistas às eleições de 2010. "É um pouco o que o Hitler fazia, para que os alemães pegassem os judeus. Ou seja, vamos treinar gente para não permitir que eles sobrevivam", disse ele, em referência ao ditador nazista alemão, Adolf Hitler.

Para Lula, a estratégia do PSDB no Nordeste não vai funcionar. "Eles vão encontrar lá gente do PCdoB, PT, PDT, PSB, CUT (Central Única dos Trabalhadores) e todas as centrais, MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) e movimento popular. Acho que vão se dar um pouco mal."

Eleições

Último a falar, após duas horas de discursos de parlamentares e ministros, Lula deu sequencia ao clima de palanque petista do evento. Possível candidata do PT à Presidência em 2010, Dilma foi saudada pelo governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral (PMDB), como "futura presidenta do Brasil".

Em tom de conclamação, Lula alertou para o risco de retrocessos caso seja eleito no próximo ano um presidente que não Dilma. "Quem é prefeito ou governador sabe bem que um estranho no ninho pode desmontar em apenas dois anos tudo o que foi feito. E não venham dizer que o movimento popular não deixa por que é bobagem."

O pleito de 2010 será o primeiro em décadas do qual Lula não participará como candidato. "Tenho uma certa tristeza. Essa vai ser a primeira eleição para presidente da República em que meu nome não vai estar na cédula. Na minha cabeça vai ter um vazio", brincou. "Por isso, depois dele (Lula), (vem) a Dilma, para poder consagrar a continuidade de um projeto."

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Imprensa isenta? No Brasil? Conta outra, vai!

A edição mais recente da revista Veja traz matéria que ridiculariza o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mais uma vez. Até aí nada de extraordinário, em se tratando de veículo de comunicação que nunca fez questão de esconder a ideologia de ultradireita a que pertence. A novidade está no fato de que, além de atacar o chefe da nação, a revista apresenta-se justamente na condição de arauta da boa e velha imprensa. Como se suas páginas carregassem a lisura necessária ao fiel exercício da nobre profissão.

Nada mais longe da realidade. Intitulado "Más notícias, presidente", o texto foca afirmação de Lula, durante evento para catadores de papel, em São Paulo. Em determinado ponto de seu discurso, o presidente pediu aos jornalista presentes que conversassem com a categoria e se ativessem às palavras dos entrevistados, sem interpretá-las. Ah! Foi o suficiente para que, raivosamente, a revista comparasse Lula a seus pares da Venezuela, Bolívia, Argentina e do Equador. Uma vizinhança que, na opinião de Veja, despreza a liberdade de imprensa e impõe à população apenas a versão oficial dos fatos. Um procedimento que, diga-se de passagem, até então não era verificado no Brasil, berço sagrado da democracia. Até então! Não esqueça!

Para bom entendedor, meia palavra basta. Daí o pensamento subtendido, o alerta sobre o possível nascimento de uma ditadura de esquerda na Terra de Santa Cruz, se os brasileiros não tomarem cuidado. Também aqui nada de estarrecedor, pela linha editorial em questão.

O impressionante é que Veja se coloca na posição de verdadeiro ícone da objetividade. Quem estudou um mínimo que seja da ciência da Comunicação Social sabe que o termo caiu no desuso, simplesmente porque, hoje, a maioria concorda que o jornalismo nasce das versões e não do mero reportar dos fatos, como se espelho da verdade absoluta fossem. Cada matéria possui um "quê" da pessoa que a redigiu e do meio que a veiculou.

Na contramão da história, Veja passa a falsa ideia de que, no Brasil, a imprensa respeita o público e não cultiva outro interesse que não o de informar ou, como preferem os românticos, ser porta-voz da sociedade. Veja esqueceu-se de que o dia-a-dia das redações é bem diferente disso. Há interesses fortíssimos por trás de jornais, TVs, rádios, revistas e internet (leia-se sites de notícias dos grandes meios). A imprensa não olha todos igualmente. Nem as personalidades. Existem aquelas com tanto poder que, por meio do dinheiro ou de ameaças veladas, impõem o silêncio em torno de acontecimentos às vezes escabrosos e que poderiam interferir na execução de ambiciosos projetos políticos.

Em tempo: Necessário abrir um parêntese para reconhecer um dos muitos defeitos do presidente Lula: a língua. Certa feita, o recém-eleito presidente operário foi a um evento, salvo engano, em São Paulo, onde estava a nata do empresariado da capital. Para variar, Lula falou o que não devia. Resultado: o Estadão mancheteou na edição do dia seguinte o conteúdo - que, infelizmente me foge à memória - dos impropérios presidenciais.

Ao ler o jornal e começar a sentir os efeitos negativos do que dissera, Lula teria comentado o seguinte: "Todo mundo tem duas orelhas, um nariz, dois olhos e uma boca. Eu, não. Tenho duas orelhas, um nariz, dois olhos e duas bocas".

Numa recente conversa que manteve com o jornalista Kennedy Alencar e que redundou em manchete da Folha de S. Paulo, o presidente reconheceu novamente seu "tendão de Aquiles". Afirmou que não gosta de interlocutores. Prefere falar ele mesmo. "Eu falo demais", pontuou. Antes, Lula deu mostras de sua fraqueza. Para ilustrar a promiscuidade que reina na política nacional, impiedosa com quem não faz alianças, com supostos adversários inclusive, o presidente desancou. Garantiu que, se Jesus Cristo morasse no Brasil, faria aliança até com Judas, o traidor. A Folha e afins exploraram a infeliz comparação dias a fio.

No episódio dos catadores de papel, Lula colhe os frutos de sua naturalidade que talvez o leve ao descontrole verbal. Nada, entretanto, que o coloque abaixo da maioria dos políticos brasileiros. Ao contrário. Lula é melhor que grande parte deles. Apenas não é perfeito, como querem alguns parecer.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Vida ou morte, depende do ponto de vista

Duas datas intrigantes são lembradas no calendário litúrgico, em novembro. No dia 1º, a Igreja Católica menciona com especial fervor Todos os Santos, que estariam já na glória a desfrutar do convívio divino face a face. É o que se chama Jerusalém Celeste ou pátria definitiva. No dia seguinte há a comemoração - isso mesmo, comemoração - dos fiéis defuntos, numa clara alusão ao fato de que, para os cristãos, a morte não significa o fim, mas simplesmente a passagem de um estágio a outro de vida. Os restos mortais ficam no cemitério, como que a "semear" o local sagrado, até a 2ª vinda de Jesus, enquanto a alma segue para Deus e, depois, para o purgatório ou para a Jerusalém Celeste, conforme o grau de elevação espiritual.

Nesse contexto toma lugar um ensinamento largamente popularizado no Credo: a comunhão dos santos. Seria uma espécie de ligação, via oração de intercessão, das igrejas peregrina (terrena), purgatorial (purificadora) e triunfante (Jerusalém Celeste). Uma realidade possível graças à ressurreição, o fundamento da fé cristã,também expressa no Credo. Alguns teólogos gostam de descrevê-la de maneira poética, bonita mesmo. Antes de vencer a morte, Jesus descera à mansão dos mortos e, em seguida, pela ressurreição, inaugurara o céu com a vida eterna, o grande trunfo da Cristandade.

Daí o sugestivo questionamento sobre a existência, mais precisamente a respeito da maneira como cada um a está usando ou direcionando. Sempre sob o amparo da perspectiva de eternidade, ao ser humano Deus oferece período único, que a Bíblia denomina de "plenitude dos tempos" ou "tempo da graça" - levada a efeito pela encarnação do Verbo -, para melhor colaborar na execução da obra da salvação. O Tríduo Pascal - paixão, morte e ressurreição - significa, antes de mais nada, "o ponto nodal" em que a fé separou-se da razão. Então, o espanto diante da mensagem do Messias, cujo cerne mostra paradoxos incompreensíveis ao intelecto. Da morte brota a vida. Para nascer é preciso morrer. São Paulo reflete muitíssimo bem tal verdade, quando proclama, em alto e bom som, que Deus escolhera o fraco para confundir os fortes, o simples para confundir os doutores. A lógica divina definitivamente não é a lógica humana.

O Dia de Finados, portanto, não por acaso precedido do Dia de Todos os Santos, representa momento ímpar de celebração da vida e não da morte.

domingo, 1 de novembro de 2009

Curiosidade do outro lado do mundo


O outono chinês é normalmente marcado por paisagens avermelhadas e opacas, sem o colorido intenso do verão. Mas neste ano as altas temperaturas que continuam superando os 20 graus em pleno mês de outubro têm transformado o visual desta estação. Quem agradece são os turistas, que podem aproveitar melhor os passeios em lugar como o Parque Xiangshan, situado no noroeste da capital chinesa.

Internet 40 anos


A internet completa 40 anos no local onde nasceu, na Universidade da Califórnia (UCLA), em Los Angeles. Lá, o pai da web previu futuro de ficção científica para a rede mundial de computadores. Leonard Kleinrock, professor de informática da UCLA, e responsável pelo primeiro envio de uma mensagem entre dois computadores ligados em rede, anunciou que, daqui a dez anos, a internet estará até na ponta dos dedos.

Brasil registra queda histórica em mortalidade infantil

Deu no JB Online: Há poucos anos, o Brasil aparecia como um dos líderes no desonroso ranking dos países com maior taxa de mortalidade infantil da Organização das Nações Unidas. Eram 47,1 mortes para cada mil nascidos vivos. Atualmente são apenas 19,3 para cada mil. Se a mortalidade continuar neste ritmo de queda, o país alcançará ainda em 2011 o quarto objetivo do milênio proposto pela entidade internacional, de 15,7 óbitos para cada mil nascidos vivos, que, supostamente, deveria ser atingido até 2020.

Honduras: o gol foi do Brasil

De Flávio Aguiar, Agência Carta Maior: Foi o Secretário (equivalente a Ministro no Brasil) Thomas Shannon Jr. sair do banco de reservas e entrar em campo para Micheletti, o presidente golpista em Honduras, afinar e aceitar alguma forma de acordo. Pudera: além de levar para a área de Micheletti o risco dos EUA não reconhecerem a eleição de novembro sem um acordo com Zelaya, Shannon levava também por debaixo do pano a ameaça de que isso redundasse na retirada dos milhões de dólares da ajuda norte-americana ao país, cujo governo ficaria então, literalmente, pendurado no pincel e sem escada para descer, ameaçando esborrachar-se. Mas não nos iludamos.

Neste jogo perigoso o gol não foi norte-americano. O gol foi do Brasil, na verdadeira folha seca que foi, em curva pelo lado da barreira, como fazia Waldir Pereira, o imortal Didi, o acolhimento de Zelaya na nossa embaixada em Tegucigalpa. Os norte-americanos escaparam isso sim de marcar um gol contra, ameaçados que estavam de uma conivência velada com os golpistas por omissão, o que arruinaria de vez a política do presidente Barack Obama para a América Latina, além de mergulha-lo no descrédito. Esse descrédito não seria apenas externo. Seria interno também.

A partir de um fracasso de Obama na questão, os republicanos e seus lobistas mais à direita fariam gato e sapato com tudo o que o novo governo tentasse fazer, em qualquer frente, inclusive na área da saúde.Aparentemente foi mais complicado negociar internamente no próprio governo norte-americano do que soltar a pelota na área de Micheletti e mandar escrever, senão o pau ia comer na pequena área.Por seu lado, o Brasil sai com um trunfo e um triunfo na mão, contra todos os fantasmas que se ergueram no caminho, alegando que o Itamaraty estava deixando sua tradicional posição “equilibrada” para se envolver numa disputa que não era sua, como se democracias e ditaduras nas vizinhanças não nos dissessem respeito.

Junto com a aprovação da entrada da Venezuela na Comissão de Relações Exteriores do Senado, esse acordo em Tegucigalpa, possibilitando que Zelaya deixe a embaixada para o Palácio Presidencial, ou pelo menos encaminhando a questão nesse sentido, é uma grande vitória para o governo e sua política interna e externa. “O Brasil estava certo”, é o que se pode ler nas entrelinhas de qualquer noticiário. Foi a intervenção brasileira, acolhendo Zelaya, que abriu a oportunidade e ao mesmo tempo forçou os Estados Unidos a agirem.Se os golpistas, apesar das repetidas juras de Micheletti em sentido contrário, atentassem contra a embaixada, os Estados Unidos e sua omissão seriam co-responsáveis pelo que viesse a ocorrer. E ficou mais uma vez comprovado que o Brasil tornou-se um jogador indispensável dentro dessas quatro linhas, que é a complicada quadratura do círculo da política regional e mundial.