Benedito Said
Antes incrédulo, C.S.Lewis, que considerava Deus seu inimigo, escreve convertido: “Rezemos para que a raça humana jamais escape da Terra para espalhar sua iniquidade em outros lugares”. Montes Claros teve um ano recheado de conquistas, mas respirou nas esquinas, palácios e escombros, guetos e praças iluminadas, o resultado da insanidade de homicídios, a maioria provocada pelo tráfico de drogas. Iniquidade desumana também fruto do que Platão chamou de pior doença, “desigualdade social”. Kant afirmava que estamos na hipermodernidade, onde prevalece a busca pelo sucesso individual, o que inclui riqueza ou posse. Daí os marginalizados, não inseridos socialmente, desassistidos, maltrapilhos, rotos, macilentos. Milhares de seres que não conseguem fazer da existência um jardim tornam-se as principais vítimas. Homens e mulheres que recolhem, no alvorecer da vida, pedaços de mágoas pelas ruas do abandono, passando por escolas onde não se ensina o gostar de si e dos outros, preceito de Deus, e que perdem a família como referência.
O grande desafio da cidade, e do País, continua a ser superar o desnível social. Khalil Gibran define que “a tristeza é um muro entre dois jardins”. As injustiças sociais separam classes e sonhos, gerando, de um lado, a tristeza e a dor, o desencanto e entorpecimento, fábrica de almas de coração agoural; do outro, expectativas e condições para sonhar nos braços de Oniro, o que permite encantar-se com a vida. Combater a injustiça social é dar direitos iguais aos sonhadores e aos felizes dos dois lados para que possam superar o triste muro intangível que os separa, garantindo amor e respeito, valorização do ser humano como obra de Deus e não simulacro do divino. Willian Young escreve que “Deus, que é a base de todo o ser, mora dentro, em volta e através de todas as coisas, e emerge em última instância como o real. Qualquer aparência que mascare essa verdade está destinada a cair”. Mas cabe aos homens a escolha, onde se incluem as políticas públicas, a honradez, o compromisso celestial de servir ao próximo nos moldes do primitivo cristianismo ou no ano jubilar judaico, quando dívidas eram perdoadas, escravos libertados, as terras equitativamente redistribuídas.
O poeta José Régio escreve: “não sei para onde vou, sei que não vou por aí”. Podemos mudar de rumo, rever a luta pelo poder, eliminar preconceitos, guerras e abusos de relacionamentos. Plantar um jardim igualitário, com um pronto-socorro de almas funcionando entre girassóis e hortênsias, para abrigar os que estão fora da rota celestial, vítimas da injustiça social ou da falta de amor.
O autor é jornalista. Mantém coluna diária no Jornal de Notícias, é diretor da Rádio Unimontes e professor universitário.