sábado, 26 de setembro de 2009

Chalita no PSB

A saída do professor Gabriel Chalita das fileiras do PSDB abre margem para reflexões interessantes. Fiel seguidor do médico Geraldo Alckmin, ex-governador de São Paulo que já concorreu à Presidência da República, Chalita é aclamado e respeitado no meio católico. Mantém programa semanal na TV Canção Nova, o Papo Aberto. É presença constante em eventos ligados à Renovação Carismática Católica. Algumas vezes levou Alckmin para a frente da telinha - na época o programa era chamado Quarta Viva - e cedeu a ele generoso espaço para explanar sobre suas qualidades de bom pai de família e político honrado. Uma dessas oportunidades, salvo engano, foi justamente no calor da corrida rumo ao Palácio do Planalto, em 2006. O destino de Chalita deve ser o PSB, partido do provável candidato a presidente Ciro Gomes que integra justamente a base de sustentação do Governo Federal. Quer dizer, de oposição Chalita passará a situação.

A imprensa, em polvorosa, especula sobre a movimentação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para colocar Chalita no palanque paulista da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, preferida do PT para disputar o mais alto cargo do país. Numa clara provocação ao governador de São Paulo José Serra, pré-candidato do PSDB à Presidência, a quem, aliás, Chalita acusa de preconceito em relação à sua pessoa. Para alguns, Chalita, de 40 anos, tem poder de fogo, já que foi o vereador mais votado da capital paulista nas últimas eleições, além de integrar a RCC, pródiga em eleger representantes às assembleias legislativas e ao Congresso Nacional.

Não deixa de ser paradoxal o ingresso de um adepto da Renovação Carismática Católica, conservadora por excelência, numa sigla de tendência esquerdista, tradicionalmente liberal quanto à moral. Na melhor análise, seria como misturar água e óleo. Senão vejamos. Há três correntes de pensamento na Igreja Católica: a tradicional, mais voltada ao culto e ao rito no interior dos templos; a conservadora, que exorciza a teoria marxista e defende a prática radical de vida evangélica - a RCC é um dos exemplos mais cabais -; e a progressista, mais politizada e nitidamente influenciada pelas ideias socialistas de Marx - dessa ala é que surgiram o Partido dos Trabalhadores e a Teologia da Libertação. Chalita engrossaria a corrente conservadora, a mesma do deputado estadual mineiro Eros Biondini, que também apresenta programa semanal na TV Canção Nova, o Mais Brasil.

Pois bem. Tudo isso só é possível graças a absoluta falta de respeito à decisão do Tribunal Superior Eleitoral, ratificada pelo Supremo Tribunal Federal, que definiu que o mandato pertence ao partido. Noutras palavras, vigora no Brasil a fidelidade partidária. No contexto, entretanto, algo de gravidade maior chama a atenção. No rastro dessa tentativa de se criar vínculo do político com a legenda ganha corpo a ideologia que, no Brasil, infelizmente, passa longe de se tornar realidade. Se ideologia existisse na Terra de Santa Cruz, o ingresso no PSB de Chalita, bacharel em Direito, mestre em Ciências Sociais e Doutor em Comunicação e Semiótica, não ocorreria. Mas como em política, sobretudo no Brasil, não há lógica... .

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