Quando o Supremo Tribunal Federal deu aquele espetáculo deprimente de completo desconhecimento do que seja, de fato, o jornalismo, criou, sem saber, um novo fôlego para a categoria. É que, depois de o presidente do STF, ministro Gilmar Mendes, relator do processo que pedia a extinção do diploma, comparar o profissional de imprensa ao cozinheiro - com todo respeito a esse trabalhador, mas a diferença entre os dois ofícios é abissal -, e de arrancar apoio de seus pares presentes, à exceção de apenas um, que votou contra, a sociedade ficou chocada. Sim, essa é a palavra que melhor define a posição retrógrada e, segundo corre à boca miúda, de retaliação à classe, que não poupa críticas à atuação de Gilmar Mendes na Alta Corte. A estratégia do STF foi tão superficial que os magistrados, não se sabe porque cargas d'água, confundiram jornalista com escritor e colocaram a sociedade em geral na condição de trabalhar num veículo de comunicação, sem qualquer exigência aparente. Transformaram a imprensa numa casa de ninguém. Esqueceram-se de que a arte de detectar um fato e torná-lo notícia requer preparo, estudo e consciência de que existe uma linha editorial a nortear jornal, rádio ou TV . O STF menosprezou a ciência em pleno século XXI. Jogou no lixo um ramo do conhecimento.
Pois bem. Entre as várias reações contrárias à decisão tétrica do STF e voltadas para a valorização do diploma de jornalista, está a do Ministério da Educação que entregou, em Brasília, relatório com novas diretrizes curriculares para o curso de jornalismo. Abaixo, a íntegra da matéria, publicada no Portal UAI:
"Mudanças à vista nos cursos de jornalismo de todo o país. Uma comissão chefiada pelo Ministério da Educação (MEC) apresentou na sexta-feira, em Brasília, relatório que sugere a obrigatoriedade do estágio supervisionado para os alunos, a separação do jornalismo do curso de graduação em comunicação social nas universidades e o aumento da carga horária de estudos. A proposta com as novas diretrizes curriculares será agora avaliada pelo Conselho Nacional de Educação e a expectativa do MEC é de que as alterações sejam aprovadas ainda este ano para começar a vigorar em 2010.
O principal objetivo da revisão das regras é valorizar o diploma de jornalista, que deixou de ser obrigatório para o exercício da profissão este ano, depois de decisão do Supremo Tribunal Federal (STF). “A atualização do projeto pedagógico dos cursos de jornalismo vai ajudar a fortalecer a categoria, pois permitirá a formação de profissionais mais competentes e qualificados. Estamos propondo a criação de seis eixos pedagógicos na graduação, para dimensionar melhor a prática dos estudantes. A ideia não é fazer um curso técnico, e sim mais crítico e pragmático”, diz o presidente da Comissão de Especialistas em Ensino de Jornalismo do MEC, José Marques de Melo.
A proposta é de que o curso continue com quatro anos de duração, mas com carga horária estendida das atuais 2,8 mil para 3,2 mil horas/aula. Desse total, 200 horas devem ser de estágio obrigatório, supervisionado por professores e feito por meio de convênios entre as universidades e empresas de comunicação. Os especialistas também defendem que o jornalismo deixe de ser uma habilitação da área de comunicação, tornando-se uma graduação independente. De acordo com o relatório, “a imposição do curso de comunicação social de modelo único, em substituição ao curso de jornalismo, teve consequências prejudiciais para a formação universitária da profissão”, pois “o jornalismo não pode ser guiado por objetivos de publicidade, relações públicas ou mero entretenimento”.
As sugestões foram bem aceitas pela Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), que acompanhou todo o trabalho da comissão. “As mudanças são positivas. Acredito que a separação entre jornalismo e comunicação social vai fortalecer a carreira, que teve sua importância diluída ao se misturar com publicidade e propaganda e relações públicas. O isolamento vai permitir o estudo mais concentrado das teorias do jornalismo”, afirma o diretor da Fenaj, José Carlos Torves.
Em Belo Horizonte, a PUC Minas recebeu com tranquilidade a proposta, que está sendo avaliada pelo colegiado da instituição. “A PUC está afinada com as sugestões do novo projeto pedagógico. Mas, como professor, não concordo com a desvinculação entre jornalismo e comunicação. É claro que o jornalismo tem suas distinções e teorias próprias, no entanto, não consigo vê-lo fora do grande campo da comunicação. Quanto ao estágio, vejo com muita alegria a proposta, pois ela dá a possibilidade da prática efetiva sem abrir mão de projetos experimentais e trabalhos de conclusão de curso”, afirma o secretário de comunicação da PUC, Mozahir Salomão."
Charge: luiznemer.files.wordpress.com
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