sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Esperança da continuidade

O Brasil está prestes a eleger um novo presidente. A mudança é salutar para o fortalecimento da democracia. Disso ninguém duvia. O problema emerge da qualidade duvidosa das alternativas toscas ao modelo inaugurado por Luiz Inácio Lula da Silva, tantas vezes ridicularizado e menosprezado devido a uma suposta falta de cultura. Noutras palavras, Lula não tem sequer curso superior. Trata-se de um ex-torneiro mecânico nordestino, retirante, que se destacou pelo carisma de saber como ninguém liderar os trabalhadores. Esse sempre fora seu trunfo. Um sindicalista nato que se agigantou com o PT, partido de esquerda nascido no embalo de movimentos sociais ligados à Igreja católica, que, durante muito tempo, antes de chegar ao poder, trouxe o germe da ideologia impregnado na alma. Algo de que, infelizmente, carecem as agremiações políticas do Brasil, inclusive o PT atual.

Uma lástima, porque, visível ou não, a ideologia existe e, no caso da Terra de Santa Cruz, manifesta-se da pior forma possível. No "modus operandi" da coisa pública. Ou seja, durante as eleições, o cidadão vota na pessoa, despreza ou desconhece as ideias partidárias. Detentores do mandato, entretanto, prefeitos, governadores, presidente, vereadores, deputados e senadores, agora sim sob a égide ideológica que os levou a calcar os degraus da vida pública, escancaram-na na maneira de atuar, de decidir os destinos da cidade, do estado e do país. Ao pobre eleitor sobra a resignação diante da realidade do plantio mal feito.

Pois bem. Lula conseguiu a façanha de chegar ao cargo máximo da nação, após três tentativas frustradas. Além da carnificina que costuma pautar uma corrida presidencial, Lula enfrentou o preconceito nu e cru. Não concebia a classe dominante a possibilidade de aceitá-lo. O terror foi tamanho que uma eventual vitória sua virara hecatombe. O Risco-Brasil - o temor do capital estrangeiro presente aqui ante as mudanças nos negócios que seriam provocadas por um governo socialista - subiria ao máximo. Sem as "qualidades" que as convenções julgam necessárias para uma empreitada de tal natureza, o sindicalista alçou voo certeiro, pousou no Palácio do Planalto, de onde só sairá oito anos depois, dono de um belo legado. E mesmo assim porque não se levou adiante a hipótese de um 3º mandato.

Ao contrário do pessimismo disseminado pela direita recalcada, acostumada a conduzir a história do Brasil em prol de uma casta privilegiada, Lula deu aula de sociologia, filosofia, antropologia e tudo o mais que termina em "ia". É doutor na arte de implementar o que os livros são pródigos em teorizar. Por ironia do destino, torna-se o presidente que mais investe em educação. Não faz muito, o Mec xerocou a situação do setor. Os resultados escabrosos alertaram para a urgência de medidas que promovam uma intervenção estrutural. Na pauta do dia melhoria salarial para o professor, mudança curricular e estímulo às escolas técnicas, entre outras.

Lula olhou de frente para o miserável, tocou o dedo na ferida social que arranha o passado e o presente deste país. Pior. Condena o futuro. Corajosamente, tirou do papel programas complementares de renda, que os raivosos teimam em adjetivar de assistencialistas pura e simplesmente. Reconheceu, com isso, uma chaga aberta em milhões de brasileiros sem condições de fazerem sequer as três refeições básicas diárias. Descortinou a verdade de que "saco vazio não para em pé". A pessoa precisa forrar o estômago para poder pensar em batalhar o sustento e, de quebra, ganhar um mínimo de dignidade.

Um dado interessante saiu agora há pouco. O IBGE atesta que, em 10 anos, de 1998 a 2008 - no 2º mandato de Fernando Henrique Cardoso e praticamente nos dois de Lula -, a proporção de jovens de 18 a 24 anos no ensino superior dobrou. Pulou de 6,9% para 13,9%. Ao mesmo tempo, o livro "Brasil Pós-Crise – Agenda para a Próxima Década" (Campus/Elsevier; 384 páginas; 89,90 reais), organizado pelos economistas Fabio Giambiagi e Octavio de Barros, atesta que o próximo presidente, segundo reportagem da Revista Veja, edição de 7/10/09, "terá a chance de soltar as amarras que impedem o Brasil de atingir seu potencial máximo de desenvolvimento. Além do ambiente interno e externo favorável, ele partirá de um patamar alto, fruto das conquistas de seus antecessores. A partir do Plano Real, o Brasil desistiu de procurar um modelo próprio e ilusório de desenvolvimento, integrou-se ao mundo, aderiu ao pragmatismo e hoje é claramente recompensado por isso. O novo (ou a nova) presidente herdará de Lula uma economia saudável, com o aprimoramento contínuo dos indicadores sociais". Claro que o atual governo não foi perfeito, sobretudo no que diz respeito "a agenda de reformas institucionais e econômicas", eixo central de Brasil Pós-Crise... . O que se deve enaltecer, porém, é a administração humanista, talvez o germe de um paradigma que passe a nortear as gestões futuras da nação brasileira.

Muito diferente do analfabetismo social que impregnaram as ações dos antecessores de Lula e que, ainda hoje, marca presença no cenário político nacional, mormente nos pré-candidatos da oposição a presidente. Um horror. Daí o desejo e a premência de continuidade.

Foto: acertodecontas.blog.br

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