quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Lula e seu devaneio gastronômico

É até engraçado como a grande mídia comporta-se numa seara tão árida quanto extensa como as eleições presidenciais no Brasil. Deixa-se enganar por supostos pré-candidatos que vivem a jogar para a plateia e que, até prova em contrário, almejam simplesmente a luz dos holofotes. Assim, quem sabe, conseguem ficar conhecidos da população e numa próxima empreitada teriam cacife para o embate. Não bastasse isso, macheteia o fato de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na visita a obras de revitalização do rio São Francisco, que incluiu Buritizeiro, Norte de Minas, usar de "requintes" para pernoitar "num dos canteiros", em Pernambuco.

Foi pródiga em descrever a suspeita de devaneio gastronômico - digo suspeita porque, até aquele momento, não havia números que o comprovassem, donde se conclui que... - no local. De bufê francês a acomodações luxuosas. "Improvisou-se o “quarto” de Lula no escritório do engenheiro-chefe da obra. Coisa fina. Tapete azul, televisão, frigobar, banheiro privativo e cama ‘king size’. Exceto pelo tapete e pela TV, os convidados ilustres –ministros, governadores e empresários— dormiram em alojamentos dotados das mesmas facilidades", descreve o jornalista Josias de Souza, colunista da Folha Online.

Pois bem. Se a comitiva presidencial capitulasse ante a urgência de maior austeridade, a mídia certamente esbofetearia o ex-torneiro mecânico que, nesse caso, lançaria mão de falsa aparência de modéstia e até descaso quanto à segurança. Afinal, trata-se de um chefe de Estado.

O episódio lembra as críticas ferozes quando da chegada do papa ao país, tanto o saudoso João Paulo II como Bento XVI, atual ocupante da cátedra de Pedro. Horrorizara-se com a "pompa" vaticana. Mencionara a pobreza reinante no mundo, num contraste ao contexto apresentado por Roma. Ora, a mesma lógica vale para o Pontificado Romano. O Santo Padre é autoridade constituída, temporal e atemporal. Daí a necessidade de certos cuidados. Para uns, destempero gastronômico. Para outros, medidas corriqueiras, atinentes à função.

De qualquer maneira, tomo a liberdade de transcrever o post de Josias. Ao internauta a liberdade de julgar e absorver:

"Lula e seu séquito pernoitaram num dos canteiros da obra de transposição das águas do Rio São Francisco.

Ao contrário do que insinuara o marketing oficial, a ousadia não custou ao presidente a perda do apuro que vem junto com o cargo.

Antes da comitiva oficial, chegaram à obra o requinte e a sofisticação. Deve-se o relato à equipe de reportagem do 'Diário de Pernambuco'.

Para cuidar da comida, importou-se do Recife o bufê de um bistrô francês, o La Cuisine. Incluiu bebidas e canapés.

Os alimentos foram preparados por um time de nove cozinheiros e servidos por uma equipe de duas dezenas de garçons.

Improvisou-se o “quarto” de Lula no escritório do engenheiro-chefe da obra. Coisa fina. Tapete azul, televisão, frigobar, banheiro privativo e cama ‘king size’.

Exceto pelo tapete e pela TV, os convidados ilustres –ministros, governadores e empresários— dormiram em alojamentos dotados das mesmas facilidades.

Como o presidente foi à obra mais para ser visto do que para ver, reservaram-se cerca de 50 acomodações para jornalistas. Camas de solteiro.

Para a difusão de textos e imagens, o canteiro foi equipado com 14 laptops. Peças inusuais num ambiente em que máquinas pesadas evoluem sobre a lama.

Do lado de fora, o alojamento presidencial foi adornado com tapumes de fibra e painéis de lona. Para separar os sapatos do solo, brita. Muita brita.

Antes de enfiar-se sob as cobertas, Lula tivera um dia cheio. Passara por Pirapora e Buritizeiro, em Minas. Visitara Barra, na Bahia.

No final da tarde, voara para Arcoverde, em Pernambuco. Dali fora, de helicóptero, para o local onde está assentado o canteiro do primeiro pernoite.

O nome da localidade é sugestivo: Custódia. Entre as acepções anotadas no Aurélio, duas se encaixam como luva.

Segundo o dicionário, Custódia significa: A) Lugar onde se guarda alguma coisa com segurança; B) Objeto de ouro ou prata em que se expõe a hóstia consagrada.

Nesta quinta (15), Lula dará seguimento à “missa” do São Francisco. Ainda em Custódia, fará um pa©mício. Mais um.

O palco, montado de véspera, tem 40 m² –10mX4m. Orna-o uma frase: "Projeto São Francisco. Um rio melhor, um rio para todos".

Lula discursará para os operários. E para as câmeras, naturalmente. Depois, vai à Paraíba. Novo pa©lanque. Mais discurso.

No fim da tarde, a comitiva retorna a Pernambuco. Desce na cidade de Floresta. E vai ao canteiro do segundo pernoite. Na sexta (16), Lula volta para Brasília.

Não há, por ora, informações sobre o custo da aventura administrativo-eleitoral. De concreto, só a certeza de que a conta será espetada na bolsa da Viúva."

Foto; zildoposwar.blogspot.com

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