Não deixa de ser interessante o debate que ora ocorre, por conta da insatisfação pública do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com a Vale. Como não poderia deixar de ser, a discussão tomou rumos políticos. A revista Veja, por exemplo - representante primorosa da mídia conservadora -soltou na edição desta semana matéria com o sugestivo título "PT quer engolir a Vale". A linha da reportagem aponta para suposta estratégia do governo Lula de iniciar uma reestatização da companhia a partir de seu controle acionário. A pessoa escolhida para tal façanha seria o empresário Eike Batista - ex-marido da atriz Luma de Oliveira e conhecido pela ousadia nos negócios e discurso nacionalista - que, entretanto, deu para trás, assim que, segundo a revista, percebeu a intenção de envolver a Vale na campanha da pré-candidata da situação, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, à Presidência da República.
Pois bem. A versão que se dá para os fatos peca em momentos cruciais, que certamente levariam o leitor à maior reflexão sobre o assunto. Um deles refere-se aos detalhes da privatização da companhia, ocorrida de forma obscura e que, até hoje, é alvo de desconfiança e protesto. Isso porque o então presidente Fernando Henrique Cardoso - um dos caciques do PSDB que tenta a todo custo intervir no processo eleitoral, com apoio irrestrito a candidato de seu partido, obviamente movido pelo mesmo apetite privatista - aceitou vender a Vale do Rio Doce com base apenas na infraestrutura, desprezando o valor potencial das reservas de minério de ferro. Resultado: a transação saiu a preço de banana para o Consórcio Brasil, que adquiriu o controle acionário pela bagatela de US$ 3,3 bilhões - na época subsidiado aos compradores via Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES) -, equivalente a parte do lucro trimestral atual da empresa, avaliada recentemente em espantosos US$ 196 bilhões. O martelo foi batido no dia 6 de maio de 1997, quando a produção anual era de 114 milhões de toneladas de minério de ferro.
Após sair das mãos do Estado, a Vale recebeu pesados investimentos, principalmente devido ao aumento de preço do minério de ferro, que fez o lucro anual pular de US$ 500 milhões em 1996 para US$ 12 bilhões em 2006. São números que falam por si e dispensam análises fantasiosas na direção de vantagens para o Brasil. Argumentos do tipo elevação de contratações: de 13 mil em 1996 para 41 mil dez anos depois ou, ainda, pagamento de US$ 2 bilhões em impostos, em 2005.
Mas a questão central desta postagem visa mais ao imbróglio eleitoral a que querem transformar o problema. Voltando a focar a reportagem de Veja, a relação amistosa da Vale com o presidente Lula, graças à intermediação do então ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, que caiu em desgraça após ter sido apontado como mentor do mensalão, esquema para coagir parlamentares a votar projetos de interesse do governo. Depois da queda de Dirceu, em 2005, conforme a revista, os afagos continuaram até a deflagração da violenta crise econômica internacional, no 2º semestre do ano passado, que afetou grandes empresas, inclusive a Vale, onde houve 1.500 demissões. Além disso, o presidente Lula questiona a redução de investimentos de longo prazo no país, como o Pólo Siderúrgico de Marabá, avaliado em US$ 5 bilhões. A Globo OnLine sinaliza que "a gota d'água foi a campanha publicitária levada ao ar recentemente pela Vale, na qual destaca seu papel como empregadora e investidora no Brasil". A propaganda foi recebida como "bate-boca público" com Lula.
Outro ponto que a reportagem de Veja sequer menciona é o contexto da privatização da antiga Vale do Rio Doce, nascida em 1942, sob a tutela do governo Getúlio Vargas. Em 67 anos de história, a companhia tornou-se a maior empresa de mineração diversificada do país e das Américas, presente em 14 estados brasileiros e nos cinco continentes. Trata-se da maior empresa privada nacional. Pois bem. No período em que passou para mãos privadas, havia no mundo uma euforia quanto aos benefício da Globalização, processo que tem como marco inicial 1990, com o aprofundamento das relações econômicas, sociais, culturais e políticas. O fenômeno só foi possível a partir do desenvolvimento extraordinário dos veículos de comunicação, que diminuíram consideravelmente as distâncias. O ufanismo em torno da Globalização, entretanto, pertence ao passado, em especial porque seu advento beneficiou drasticamente as megafusões, interferiu na soberania dos Estados e aumentou os riscos das transações financeiras, agora realizados mundialmente. A crise econômica internacional, que estourou em setembro de 2008, é fruto da Globalização, que estimula aplicações em papéis, dinheiro fácil e, claro, traz consigo riscos absurdos, tal qual aquele que derrubou economias antes sólidas. Estados Unidos, Alemanha e Japão são alguns exemplos.
Então, discutir acerca da Vale, sem abordagens como essas significa desprezar a inteligência do público. Quanto a Lula, há que se considerar sua coragem de mexer em vespeiro, em colocar na pauta do dia assuntos indigestos que, creio, outros governos definitivamente não fariam. Agora mesmo, o presidente autorizou a taxação em 2% do capital estrangeiro que entra no Brasil. O objetivo é evitar especulação. Lula está errado? Claro que não.
Foto: Folha OnLine
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