A edição mais recente da revista Veja traz matéria que ridiculariza o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mais uma vez. Até aí nada de extraordinário, em se tratando de veículo de comunicação que nunca fez questão de esconder a ideologia de ultradireita a que pertence. A novidade está no fato de que, além de atacar o chefe da nação, a revista apresenta-se justamente na condição de arauta da boa e velha imprensa. Como se suas páginas carregassem a lisura necessária ao fiel exercício da nobre profissão.
Nada mais longe da realidade. Intitulado "Más notícias, presidente", o texto foca afirmação de Lula, durante evento para catadores de papel, em São Paulo. Em determinado ponto de seu discurso, o presidente pediu aos jornalista presentes que conversassem com a categoria e se ativessem às palavras dos entrevistados, sem interpretá-las. Ah! Foi o suficiente para que, raivosamente, a revista comparasse Lula a seus pares da Venezuela, Bolívia, Argentina e do Equador. Uma vizinhança que, na opinião de Veja, despreza a liberdade de imprensa e impõe à população apenas a versão oficial dos fatos. Um procedimento que, diga-se de passagem, até então não era verificado no Brasil, berço sagrado da democracia. Até então! Não esqueça!
Para bom entendedor, meia palavra basta. Daí o pensamento subtendido, o alerta sobre o possível nascimento de uma ditadura de esquerda na Terra de Santa Cruz, se os brasileiros não tomarem cuidado. Também aqui nada de estarrecedor, pela linha editorial em questão.
O impressionante é que Veja se coloca na posição de verdadeiro ícone da objetividade. Quem estudou um mínimo que seja da ciência da Comunicação Social sabe que o termo caiu no desuso, simplesmente porque, hoje, a maioria concorda que o jornalismo nasce das versões e não do mero reportar dos fatos, como se espelho da verdade absoluta fossem. Cada matéria possui um "quê" da pessoa que a redigiu e do meio que a veiculou.
Na contramão da história, Veja passa a falsa ideia de que, no Brasil, a imprensa respeita o público e não cultiva outro interesse que não o de informar ou, como preferem os românticos, ser porta-voz da sociedade. Veja esqueceu-se de que o dia-a-dia das redações é bem diferente disso. Há interesses fortíssimos por trás de jornais, TVs, rádios, revistas e internet (leia-se sites de notícias dos grandes meios). A imprensa não olha todos igualmente. Nem as personalidades. Existem aquelas com tanto poder que, por meio do dinheiro ou de ameaças veladas, impõem o silêncio em torno de acontecimentos às vezes escabrosos e que poderiam interferir na execução de ambiciosos projetos políticos.
Em tempo: Necessário abrir um parêntese para reconhecer um dos muitos defeitos do presidente Lula: a língua. Certa feita, o recém-eleito presidente operário foi a um evento, salvo engano, em São Paulo, onde estava a nata do empresariado da capital. Para variar, Lula falou o que não devia. Resultado: o Estadão mancheteou na edição do dia seguinte o conteúdo - que, infelizmente me foge à memória - dos impropérios presidenciais.
Ao ler o jornal e começar a sentir os efeitos negativos do que dissera, Lula teria comentado o seguinte: "Todo mundo tem duas orelhas, um nariz, dois olhos e uma boca. Eu, não. Tenho duas orelhas, um nariz, dois olhos e duas bocas".
Numa recente conversa que manteve com o jornalista Kennedy Alencar e que redundou em manchete da Folha de S. Paulo, o presidente reconheceu novamente seu "tendão de Aquiles". Afirmou que não gosta de interlocutores. Prefere falar ele mesmo. "Eu falo demais", pontuou. Antes, Lula deu mostras de sua fraqueza. Para ilustrar a promiscuidade que reina na política nacional, impiedosa com quem não faz alianças, com supostos adversários inclusive, o presidente desancou. Garantiu que, se Jesus Cristo morasse no Brasil, faria aliança até com Judas, o traidor. A Folha e afins exploraram a infeliz comparação dias a fio.
No episódio dos catadores de papel, Lula colhe os frutos de sua naturalidade que talvez o leve ao descontrole verbal. Nada, entretanto, que o coloque abaixo da maioria dos políticos brasileiros. Ao contrário. Lula é melhor que grande parte deles. Apenas não é perfeito, como querem alguns parecer.
2 comentários:
Por isso que nunca acredito 100% em tudo que leio a não ser na internet que sempre mostra os dois lados da situação.
De fato, Bárbara, se a gente não procurar aguçar o senso crítico em relação ao que a mídia propaga, seremos eternas vítimas dessa relação promíscua entre os meios de comunicação e a notícia em si.
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