Num final de semana em que o imbróglio de Honduras parece dar sinais de que, finalmente, será resolvido, e que o índice de mortalidade infantil vem à tona como um dos mais baixos da história, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso escreve o artigo "Para onde vamos?" em que desanca o ex-companheiro e atual chefe da nação.
A ferocidade com que FHC bate em Lula chega ser engraçada. Primeiro porque, segundo consta nos anais da política brasileira, o sociólogo e presidente de honra do PSDB pediu encarecidamente que o país esquecesse o que escrevera enquanto militante esquerdista. Àquela altura, FHC mostrava a que viera: rendera-se ao neoliberalismo como poucos. Entre suas ações destacam-se um governo voltado para as elites e uma avalanche de privatizações. A maior e mais polêmica delas, a da antiga Vale do Rio Doce que, até hoje, gera protestos, sobretudo devido ao contexto nebuloso em que aconteceu: foram recebidos míseros U$ 3 bilhões, valor que não levou em conta as reservas de ferro da empresa e que, nos dias que ora correm, equivalem a apenas fração do lucro trimestral da 2ª maior mineradora do mundo.
E segundo, as hilárias palavras de FHC surgem nas vésperas do Dia de Finados. É como se saíssem da boca de um morto-vivo, prestes a deixar a tumba na qual recolhera-se e, no melhor estilo oposicionista, dar o pontapé inicial para a corrida presidencial de 2010. Simples estratégia de campanha.
A seguir, alguns trechos da pérola de FHC:
"A enxurrada de decisões governamentais esdrúxulas, frases presidenciais aparentemente sem sentido e muita propaganda talvez levem as pessoas de bom senso a se perguntarem: afinal, para onde vamos? Coloco o advérbio “talvez” porque alguns estão de tal modo inebriados com “o maior espetáculo da terra”, de riqueza fácil que beneficia a poucos, que tenho dúvidas."
"Por que anunciar quem venceu a concorrência para a compra de aviões militares se o processo de seleção não terminou? Por que tanto ruído e tanta ingerência governamental em uma companhia (a Vale) que, se não é totalmente privada, possui capital misto regido pelo estatuto das empresas privadas? Por que antecipar a campanha eleitoral e, sem qualquer pudor, passear pelo Brasil às custas do Tesouro (tirando dinheiro do seu, do meu, do nosso bolso...) exibindo uma candidata claudicante? Por que, na política externa, esquecer-se de que no Irã há forças democráticas, muçulmanas inclusive, que lutam contra Ahmadinejad e fazer mesuras a quem não se preocupa com a paz ou os direitos humanos?"
"Pouco a pouco, por trás do que podem parecer gestos isolados e nem tão graves assim, o DNA do “autoritarismo popular” vai minando o espírito da democracia constitucional. Essa supõe regras, informação, participação, representação e deliberação consciente."
"Diferentemente do que ocorria com o autoritarismo militar, o atual não põe ninguém na cadeia. Mas da própria boca presidencial saem impropérios para matar moralmente empresários, políticos, jornalistas ou quem quer que seja que ouse discordar do estilo “Brasil potência”."
"Estado e sindicatos, Estado e movimentos sociais estão cada vez mais fundidos nos altos-fornos do Tesouro. Os partidos estão desmoralizados. Foi no “dedaço” que Lula escolheu a candidata do PT à sucessão, como faziam os presidentes mexicanos nos tempos do predomínio do PRI. Devastados os partidos, se Dilma ganhar as eleições, sobrará um subperonismo (o lulismo) contagiando os dóceis fragmentos partidários, uma burocracia sindical aninhada no Estado e, como base do bloco de poder, a força dos fundos de pensão. Estes são “estrelas novas”. Surgiram no firmamento, mudaram de trajetória e nossos vorazes mas ingênuos capitalistas recebem deles o abraço da morte. Com uma ajudinha do BNDES, então, tudo fica perfeito: temos a aliança entre o Estado, os sindicatos, os fundos de pensão e os felizardos de grandes empresas que a eles se associam."
"Comecei com para onde vamos? Termino dizendo que é mais do que tempo de dar um basta ao continuísmo antes que seja tarde."
Ah! Lembre-se! Leia a íntegra aqui, na versão eletrônica do jornal Zero Hora, e esqueça tudo, tá?
0 comentários:
Postar um comentário