Duas datas intrigantes são lembradas no calendário litúrgico, em novembro. No dia 1º, a Igreja Católica menciona com especial fervor Todos os Santos, que estariam já na glória a desfrutar do convívio divino face a face. É o que se chama Jerusalém Celeste ou pátria definitiva. No dia seguinte há a comemoração - isso mesmo, comemoração - dos fiéis defuntos, numa clara alusão ao fato de que, para os cristãos, a morte não significa o fim, mas simplesmente a passagem de um estágio a outro de vida. Os restos mortais ficam no cemitério, como que a "semear" o local sagrado, até a 2ª vinda de Jesus, enquanto a alma segue para Deus e, depois, para o purgatório ou para a Jerusalém Celeste, conforme o grau de elevação espiritual.
Nesse contexto toma lugar um ensinamento largamente popularizado no Credo: a comunhão dos santos. Seria uma espécie de ligação, via oração de intercessão, das igrejas peregrina (terrena), purgatorial (purificadora) e triunfante (Jerusalém Celeste). Uma realidade possível graças à ressurreição, o fundamento da fé cristã,também expressa no Credo. Alguns teólogos gostam de descrevê-la de maneira poética, bonita mesmo. Antes de vencer a morte, Jesus descera à mansão dos mortos e, em seguida, pela ressurreição, inaugurara o céu com a vida eterna, o grande trunfo da Cristandade.
Daí o sugestivo questionamento sobre a existência, mais precisamente a respeito da maneira como cada um a está usando ou direcionando. Sempre sob o amparo da perspectiva de eternidade, ao ser humano Deus oferece período único, que a Bíblia denomina de "plenitude dos tempos" ou "tempo da graça" - levada a efeito pela encarnação do Verbo -, para melhor colaborar na execução da obra da salvação. O Tríduo Pascal - paixão, morte e ressurreição - significa, antes de mais nada, "o ponto nodal" em que a fé separou-se da razão. Então, o espanto diante da mensagem do Messias, cujo cerne mostra paradoxos incompreensíveis ao intelecto. Da morte brota a vida. Para nascer é preciso morrer. São Paulo reflete muitíssimo bem tal verdade, quando proclama, em alto e bom som, que Deus escolhera o fraco para confundir os fortes, o simples para confundir os doutores. A lógica divina definitivamente não é a lógica humana.
O Dia de Finados, portanto, não por acaso precedido do Dia de Todos os Santos, representa momento ímpar de celebração da vida e não da morte.
0 comentários:
Postar um comentário