sábado, 17 de janeiro de 2009

Apesar da linha editorial conservadora, Veja rende-se à esperança Obama

A mais nova edição da revista Veja traz na capa a expectativa gerada em torno da posse de Barack Obama, na próxima terça-feira. Eleito primeiro presidente negro dos Estados Unidos, o democrata de 47 anos torna-se o homem mais poderoso do mundo e herda uma herança maldita de seu antecessor, George W. Bush, que andou na contramão da história durante oito longos anos e, agora, passa por ela como um dos piores - senão o pior - líder do Tio Sam. A vitória de Barack Obama sobre o republicano John Mcain, em novembro passado, foi comemorada em todo o planeta como um fio de esperança diante de violenta crise econômica internacional, duas guerras iniciadas pelos EUA, no Afeganistão e Iraque, o recrudescimento das relações entre Israel e palestinos na Faixa de Gaza, constante ameaça terrorista e por aí vai... .

Num cenário desses, uma revista da estirpe de Veja, que nunca escondeu seguir uma linha ultradireitista, contrária portanto a arroubos progressistas, trazer reportagem com o intrigante título "Obama: o fim do império ou o início de mais um século americano" no mínimo confirma a obviedade da tragédia que foi o governo Bush, um republicano de visão estreita, incompetente na arte de administrar e oportunista em questões morais. Ao mesmo tempo, demonstra a angústia de todos que, no fundo, sabem que Obama não é milagreiro e suas chances de sucesso são poucas. Mas pra que pensar nisso hoje, não é mesmo? Acreditar é a ordem do dia!

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Hitler nas bancas 2

Na verdade, costumam lembrar os historiadores que a 2ª Guerra Mundial começou no fim da 1ª Guerra, em 1918. Os aliados vencedores submeteram a Alemanha à vexatória condição de não poder ter um exército e tampouco de produzir alguma coisa. O país experimentou o caos socioeconômico, um dos mais drásticos já conhecidos. Isso, aliado à grande depressão, de 1929, redundou no Nazismo.

É também verdade um processo de revisionismo histórico por que passa o planeta. E a Alemanha não se configura como exceção. Há cerca de quatro ou cinco anos, pela primeira vez desde o final do conflito (1939-1945), o cinema alemão lançou o filme "A queda - as últimas horas de Hitler". Trata-se de uma produção que, ao contrário de outras tantas já feitas, não ridiculariza o ditador. Apresenta-o como um líder à beira do fracasso, nada mais. A reedição atual de jornais que circulavam no Terceiro Reich é também reflexo disso tudo.

Hitler nas bancas

A receita não falha. Tempos de crise - como a econômica que hoje varre o planeta e lançou boa parte dos países em violenta recessão - são ambientes propícios para o (re)surgimento de ideias ditatoriais. Veja o caso da Alemanha que, agora, prepara a reedição de exemplares de jornais que circulavam na época do Terceiro Reich, fundado pelo Partido Nazista. Os defensores da iniciativa justificam a opção como um estímulo à pesquisa histórica. Os que não concordam alertam para a adesão de novos radicais. Só a título de conhecimento, foram os seguidores de Adolf Hitler que lançaram o mundo na 2ª Guerra Mundial e protagonizaram uma das maiores tragédias da humanidade, com o holocausto de minorias, entre as quais os judeus. O Nacional-Socialismo alcançou o auge após o trauma do "Crack da Bolsa de Nova York", em 1929, quando boa parte da Europa e América mergulhou em profunda recessão. Veja mais aqui.

Despreparo

É certo que a vontade popular deve ser respeitada. Afinal, a democracia baseia-se justamente nisso. Outro departamento, contudo, é a qualidade dos representantes que o povo elege. Não se sabe se por falta de opção ou revolta diante dos desmandos políticos a que assiste a toda hora, o cidadão às vezes legitima mandatos a pessoas despreparadas, sem nenhuma condição de corresponder às expectativas em torno do cargo a que foram alçadas. Pior, alguns desses escolhidos deixam o poder subir à cabeça, não sabem como proceder e, para mostrar um serviço inexistente, acabam como protagonistas de cenas lastimáveis, de subserviência ou ignorância pura. Quer um exemplo? Assista às reuniões das câmaras municipais Brasil afora.

Falta uma cultura política e ideológica no país.

Lincoln contemporâneo

O ex-presidente Abraham Lincoln está mais presente do que nunca na história contemporânea dos Estados Unidos. Nos últimos dias foi intensamente lembrado no processo de transição de cargo.

O presidente George W. Bush comparou sua desastrada gestão de oito anos à frente da maior potência do planeta à do legendário Lincoln. Claro que ninguém levou a sério uma pessoa que, após deflagrar ataque covarde e sangrento ao Iraque, sob pretexto de impedir o uso de armas químicas de destruição em massa - nunca encontradas, diga-se de passagem -, de gastar bilhões de dólares para manter a guerra e de computar milhares de mortes, tanto de um lado como de outro, teve a coragem de dizer publicamente que, de fato, talvez o conflito no Golfo Pérsico, prestes a entrar no sexto ano, fora um erro.

Já o presidente eleito Barack Obama, que toma posse no dia 20, adiantou que fará parte do mesmo trajeto de Lincoln quando assumiu o governo norte-americano, em 1861. Ele e a família embarcarão no trem amanhã, da Filadélfia, estado da Pensilvânia, rumo a Washington. Neste caso, Obama pode comparar-se a quem quer que seja, visto que ainda não começou a liderar os Estados Unidos e a expectativa em torno de seu desempenho é enorme, justamente devido ao desastre de seu antecessor.

A história abraça Abraham Lincoln como o primeiro presidente eleito pelo Partido Republicano e que conduziu o país durante a dramática Guerra da Secessão (1861-1865), quando os grandes proprietários de terra, escravocratas sulistas, lutaram e perderam a batalha contra a região norte industrializada onde a escravidão tinha pouco peso. Sua eleição, aliás, é apontada como uma das causas da Guerra Civil. Lincoln posicionava-se contra a escravidão, além de seus discursos e escritos até hoje serem referência em termos de democracia. Muitos críticos consideram-no negligente, pouco eficiente e suscetível a pressões políticas. Nada, entretanto, que apagasse as grandes qualidades de reconhecer os problemas mais graves e de conseguir manter a união dos EUA, apesar dos anseios separatistas oriundos sobretudo do sul aristocrata. Era ainda excelente orador.Treze dias depois do fim da guerra, no dia 14 de abril de 2865, Lincoln foi assassinado num teatro, com um tiro na cabeça, aos 56 anos. Foto wikipédia

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Modéstia à parte

Duas guerras sangrentas e recessão. Esse é o legado dos dois mandatos consecutivos do presidente norte-americano Geroge W. Bush que, no próximo dia 20, passa o cargo para Barack Obama, eleito em novembro passado. Modéstia parece não constar entre as características de Bush filho que, ao fazer um balanço público de sua gestão à frente dos Estados Unidos, não teve receio de compará-la à do mitológico Abraham Lincoln. Sem comentários.

Êta Brasil velho de guerra!

Só para variar, o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Gilmar Mendes, colocou em liberdade mais um "ilustre" acusado de crime do colarinho branco. Dessa vez foi beneficiado o empresário Marcos Valério, suspeito de integrar suposto esquema de extorsão, fraudes fiscais e corrupção. Para o ministro, não se justifica a detenção de Valério, visto o tempo decorrido desde que ele foi preso, em outubro do ano passado. Mendes entende que, ao contrário do que ocorre, provas mais concretas já deveriam constar nos autos.

Para refrescar a memória do internauta, no ano passado o ministro Gilmar Mendes bateu o martelo e não pestanejou em soltar o banqueiro Daniel Dantas (por duas vezes), o ex-prefeito de São Paulo Celso Pitta e o megainvestidor Naji Nahas, todos acusados de crimes financeiros. A atitude de Mendes, que colocou na berlinda a autoridade da Polícia Federal e do Ministério Público da União, gerou mal-estar entre os poderes Executivo e Judiciário, além de causar protestos em meio à população. O imbróglio acabou por gestar uma nova lei, que proíbe o uso de algemas nas ações da PF. Estranhamente, o ministro preferiu o silêncio diante da transferência de um garoto de apenas 12 anos, apreendido pela nona vez por furto de carro, em São Paulo. Detalhe: o menino estava algemado. Justificativa: tratava-se de pessoa perigosa (sic). A cena deveria chocar o ministro, não?

No Brasil, a justiça não tem nada de cega.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

Não fosse trágico...

É cada uma que aparece. O ex-presidente norte-americano George Bush, pai de George W. Bush, atual presidente, saiu com essa pérola: "Eu gostaria de ver meu filho Jeb candidato. Gostaria de vê-lo presidente um dia". Não fosse trágico, seria cômico. Como se o mundo suportasse outro Bush na Presidência dos Estados Unidos, comenta a revista Veja desta semana. Meio de comunicação que, diga-se de passagem, cultua veladamente a ultradireita.

Por falar em George W. Bush, que passa o bastão para Barack Obama no próximo dia 20, ele acha que sua gestão na Casa Branca pode ser equiparada à de Abraham Lincoln, o primeiro presidente eleito pelo Partido Republicano, o mesmo do nada modesto Bush. Na verdade, trata-se de um mito nos Estados Unidos. Ao contrário de Bush filho que, ao que tudo indica, passará para a história na condição de um dos piores e desastrados líderes do Tio Sam.

BBB - Big Besteira Brasil

Começa o festival de tolices da Globo, o Big Besteira Brasil 2009. Haja paciência para suportar o culto ao voyerismo, ao emburrecimento e ao entorpecimento coletivo. Um desrespeito à inteligência do telespectador.

Melhor emprego do mundo

E governo da Austrália oferece o que considera "o melhor emprego do mundo". O de zelador da ilha Hamilton, que faz parte do arquipélago Grande Barreira Coralina, o maior recife de corais do mundo. O salário é de pouco mais de R$ 40 mil e o contrato válido por seis meses. Entre as atividades do funcionário estão coleta das correspondências, alimentar tartarugas marinhas e peixes, limpar as piscinas, observar baleias e mergulhar. Além da manutenção de um blog, com fotos e vídeos do local paradisíaco. Ah! O escolhido terá direito a casa de três quartos e sacadas com vista para o mar e a um buggy para transporte na ilha. O candidato não precisa ter curso superior, mas apenas saber nadar, mergulhar e espírito aventureiro.

Tudo muito bom, tudo muito bem, não fosse a missão de filmar e fotografar a vida marinha que, diga-se de passagem, inclui peixinhos e peixões como, por exemplo, tubarão... . Esse pequeno detalhe está deixando cabreiros possíveis interessados. Questão de ponto de vista e de coragem. A iniciativa é uma das atitudes do governo australiano para incentivar o turismo na região. Foto BBC Brasil

Opinião pública faz Câmara retroceder sobre gratificação

É impressionante como, no Brasil, a política funciona na base da pressão. Depois de alardear a criação de gratificação para seus servidores com especialização e lotados em cargos de chefia, a Câmara dos Deputados voltou atrás. Mas não foi por dignidade, não. O problema é que a imprensa colocou a boca no mundo e a simples ideia de aquela Casa aumentaria em R$ 4 milhões seus gastos mensais - no ano, essas despesas chegariam a inacreditáveis R$ 48 milhões -, justamente quando o planeta sofre os efeitos nefastos de violenta crise econômica, chocou o mais antiético dos mortais. Resultado: os parlamentares retrocederam. Presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia não se fez de rogado. Disse que deixava o imbróglio para ser resolvido pela próxima Mesa Diretora.

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

E por falar em Dilma...

Por falar na ministra Dilma Rousseff, chamou a atenção seu novo visual. Ao acompanhar o presidente Lula na inauguração de fábrica de calçados em São Paulo, ontem, Dilma apareceu em público pela primeira vez desde o final do ano passado, quando se submeteu a discreta cirurgia-plástica. O "new look" agradou, apesar da maquiagem carregada. A mulher-forte do governo Lula, pode-se dizer, já abraçou a campanha rumo ao Palácio do Planalto, tendo como cabo eleitoral o presidente Lula. Foto O Globo

Sapatada de Lula

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva continua imbatível em termos de carisma. Durante inauguração de fábrica de calçados, em São Paulo, o chefe máximo nação lembrou incidente em que um jornalista iraquiano arremessou sapatos no presidente norte-americano George W. Bush. Com um par de sapato na mão, Lula esclareceu que não era sua intenção jogá-lo contra a imprensa, mas se precaver contra possível investida dos repórteres. Resultado: uma cena impagável que, claro, renderá dividendos políticos para a pré-candidata ao Palácio do Planalto, a todo-poderosa ministra da Casa Civil, Dilma Roussef, que acompanhava Lula.

A queridinha do presidente, aliás, precisa urgentemente mostrar força nas pesquisas que serão divulgadas no primeiro semestre deste ano. Caso contrário, poderá ter sua candidatura abortada. E nada melhor do que aparecer ao lado do popularíssimo Lula, fazendo gracinhas na mídia, para chegar ao coração dos milhões de brasileiros que aplaudem o desempenho do petista na Presidência. O governador paulista José Serra, que aparece à frente nas intenções de voto até agora publicizadas, também estava presente. Passou despercebido. Foto Jornal O Tempo online

Recessão técnica

Deu no "Bom Dia Brasil" de hoje. O Brasil está em recessão técnica. Isso significa que a crise passou de ameaça à realidade, a princípio sem o furor observado em países da Europa e Ásia e nos Estados Unidos, mas com as garras afiadíssimas, prontas para o bote. O último trimestre de 2008 registrou queda, ainda não divulgada oficialmente, no Produto Interno Bruto nacional, uma tendência que deve permanecer em 2009. E as montadoras instaladas no Brasil computaram a primeira grande baixa. A General Motors demitiu, ontem, 744 funcionários temporários de sua fábrica em São José dos Campos, São Paulo. A matemática é simples. Quando as riquezas de uma nação diminuem, há retração no crescimento. O efeito dominó abarca produção, emprego e vendas.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Israel-Palestina, o conflito

O morticínio desencadeado por Israel há 17 dias, na Faixa de Gaza, reflete a ponta do iceberg de uma situação dramática, que se arrasta há décadas no Oriente Médio. Tal como ocorreu a título de consequência dos atentados de 11 de setembro de 2001, quando o Ocidente finalmente acordou para o pesadelo do terrorismo islâmico, agora essa fatia do planeta parece despertar para o "caldeirão" em que se transformou o imbróglio judaico-palestino. Nunca foi segredo para ninguém o apoio irrestrito que os Estados Unidos, no sentido de manter Israel onde está, ou seja, encravado numa região cujos demais habitantes definitivamente não têm nenhum apreço para com o povo eleito.

Israel é o único país no Oriente Médio que assume o formato de uma democracia liberal. Assegura extensa gama de direitos políticos e direitos civis, considerado ainda o mais avançado no que concerne à liberdade de imprensa, regulamentações empresariais, competição econômica, liberdade econômica e desenvolvimento humano médio. Tudo isso, aliado ao apoio irrestrito dos Estados Unidos, contribui para reforçar Israel como um peixe fora d'água numa espécie de mar islâmico.

A Palestina é uma área do Oriente Médio situada entre a costa oriental do Mediterrâneo e as margens do Rio Jordão. O local, que registrou a presença dos filisteus e semitas - conjunto língüistico composto de vários povos, entre os quais árabes e hebreus, que compartilham as mesmas origens culturais -, sempre foi alvo de muitas conquistas desde o século XII antes de Cristo. Ao contrário da maioria das etnias que por ali passavam, os árabes trataram de criar raízes. Um dos artíficios utilizados foi a língua que, semelhante ao aramaico, obteve boa aceitação.

A Faixa de Gaza, zona do atual e sangrento conflito, que já matou pelo menos 900 pessoas, agora está sob domínio do grupo extremista Hamas, que tem maioria no Parlamento e não reconhece a legitimidade do novo governo de Mahmoud Abbas, da facção rival Fatah, de linha mais moderada. Faixa de Gaza, Cisjordânia - ambas de maioria árabe-palestina, sob controle da Autoridade Palestina - e Israel ocupam a região correspondente à Antiga Palestina, fonte incessante de conflito entre judeus, palestinos e árabes.

Conforme estimava de 2008, Israel possui uma população de sete milhões e 200 mil habitantes, enquanto chega a quatro milhões o número de palestinos dipersos nos países árabes ou em campos de refugiados, situados nos territórios ocupados por Israel.

Conclusão: Mais uma vez, o Ocidente amarga a dor de sair da ficção rumo à crueza da realidade. A mídia ocidental sempre primou pela estereotipização do Oriente Médio. Passava uma imagem que oscilava entre o ridículo e a aberração. Só que, ao contrário do que a imprensa fazia questão de jogar no inconsciente coletivo, a região existe de fato, com homens, mulheres e crianças - de carne e osso - vítimas do ódio e preconceito racial. A tampa do "caldeirão", ao que parece, já não aguenta o vapor da fervura e foi lançada longe. Agora, quer queira ou não, os Estados Unidos e as potências européias deverão arcar com as conquências de toda uma história de descaso. Ao terrorismo que fincou estaca no coração da "civilização" ocidental, junta-se hoje o terrível fogaréu de guerras localizadas e aparentemente sem solução.

Um presente de grego para o planeta, que enfrenta uma das piores crises econômicas de todos os tempos.

Férias que o contribuinte custeia

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ausentou-se durante dez dias do cargo. Tirou férias com a família no arquipélago de Fernando de Noronha e na Bahia. Até aí tudo bem, não fosse o detalhe de que os R$ 4 mil usados para pagar as despesas de viagem saíram dos cofres públicos. Ora, por que o chefe máximo da nação não pode, ele próprio, com o salário que ganha, custear os gastos do merecido descanso? É por isso que, no Brasil, a política cheira mal. Fico a indagar se nos municípios e estados não ocorre a mesmíssima coisa, ou seja, cabe ao contribuinte pagar esse tipo de atividade. A Presidência da República justifica que se trata de "investimento" na saúde física e mental do homem responsável pelos destinos do país. Afinal, após o descanso, o presidente teria condições de melhor exercer as funções que lhe são atribuídas.

Volto a bater na tecla. Se as benesses advindas dos cargos públicos eletivos, e afins, não chegassem a tanto, a qualidade das pessoas que os diputam seria bem melhor. Não me refiro especificamente ao presidente Lula, por quem, aliás, nutro imensa admiração e respeito. Considero-o uma das nossas grandes, e raras, personalidades políticas, embora, como qualquer outro, fique sujeito a constrangimentos assim.

domingo, 11 de janeiro de 2009

Reminiscências do Natal

Um ou dois dias após o Natal, não me recordo bem, assisti na TV Bandeirantes a interessante debate sobre "A figura histórica de Jesus". Um grupo de jornalistas sabatinou dois teólogos durante quase duas horas. Intrigou-me, entretanto, quando um dos repórteres quis saber por que a espécie humana precisa ser salva. Pena que as indagações atropelavam-se umas às outras, deixando atônitos os interlocutores e confusos os telespectadores.

Pois bem. Como não captei a resposta do estudioso bíblico, comecei eu mesma a refletir a respeito da questão, embora nem de longe tenha base teológica para fundamentar o assunto. Não deixa de ser curioso pensar em salvação num mundo onde o desenvolvimento tecnológico alcança patamares impensáveis até há bem pouco tempo e que multiplicam as oportunidades de superação do homem pelo homem. Isso, porque o termo "salvação" talvez esteja impregnado de conceitos relativos à fragilidade extrema que, entretanto, não correspondem necessariamente ao seu significado quando derivado do Alto. De fato, necessitar de salvação pode sugerir estagnação ou mesmo uma resignação patética diante das dificuldades da vida, mas o apelo sagrado remonta a algo superior que transcende o mundo para, misteriosa e paradoxalmente, intervir no curso da história.

Assim, o motivo de a humanidade necessitar da salvação ecoa já no Gênesis, primeiro livro da Bíblia, que, conforme a tradição judaico-cristã e islâmica, narra a criação do mundo e a queda do primeiro homem e da primeira mulher, Adão e Eva, diante do pecado. Embora tenha amargado a dor da infidelidade do mais belo produto de suas mãos, Deus não abandona o ser humano a esmo. Elege um povo, os hebreus, e começa a falar por meio de pessoas especiais, os profetas, sobre a real possibilidade de redenção. Uma atitude drástica que culmina na encarnação do Verbo. É o próprio Deus que visita a Terra e dá início ao que as Sagradas Escrituras denominam singelamente de "plenitude dos tempos" ou "tempo da graça", quando, supõe-se, há então o cumprimento de muitas profecias, inclusive de uma feita lá no Gênesis e que relata a luta constante do bem contra o mal. "Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a sua geração e a geração da mulher".

Ora, se a humanidade caiu pelo erro de uma mulher, foi pela coragem de outra mulher, Maria de Nazaré, que, ao aceitar a maternidade do Filho de Deus, abriu caminho para que a grande luz voltasse a brilhar. Jesus seria um segundo Adão, agora na condição de salvador, de messias, que tomou para si todo o pecado. O véu que separava o altar da assembléia nas sinagogas, e que simboliza a distância entre Deus e o homem, rasgou-se. O contato então passa a ser direto. A graça está liberada para quem assumir a Boa Nova. Tudo no sentido de preparar o encontro final e definitivo da criatura com o Criador, seja na morte ou na segunda vinda do Cristo, no final dos tempos.

No Cristianismo, a cruz, que para os gregos era loucura e para os judeus escândalo, representa salvação. Uma nova ordem emerge no caos. É preciso morrer para viver, é preciso renascer. Da morte brota a vida, realidade demasiado incompreensível à lógica, que sucumbe e se afasta da fé, como denuncia o Papa João Paulo II, na fantástica carta encíclica "Fé e Razão". O apóstolo Paulo, contudo, joga luz na situação. Jesus veio justamente confundir os sábios e os doutores. Daí a escolha estapafúrdia dos humildes, dos pequenos... para ocuparem os primeiros lugares no reino dos céus. Trocando em miúdos, não é o conhecimento ou as coisas materiais que garantem a salvação, mas uma silenciosa e constante revolução interior que também responde pelo nome de conversão. Foto azurara