Um ou dois dias após o Natal, não me recordo bem, assisti na TV Bandeirantes a interessante debate sobre "A figura histórica de Jesus". Um grupo de jornalistas sabatinou dois teólogos durante quase duas horas. Intrigou-me, entretanto, quando um dos repórteres quis saber por que a espécie humana precisa ser salva. Pena que as indagações atropelavam-se umas às outras, deixando atônitos os interlocutores e confusos os telespectadores.
Pois bem. Como não captei a resposta do estudioso bíblico, comecei eu mesma a refletir a respeito da questão, embora nem de longe tenha base teológica para fundamentar o assunto. Não deixa de ser curioso pensar em salvação num mundo onde o desenvolvimento tecnológico alcança patamares impensáveis até há bem pouco tempo e que multiplicam as oportunidades de superação do homem pelo homem. Isso, porque o termo "salvação" talvez esteja impregnado de conceitos relativos à fragilidade extrema que, entretanto, não correspondem necessariamente ao seu significado quando derivado do Alto. De fato, necessitar de salvação pode sugerir estagnação ou mesmo uma resignação patética diante das dificuldades da vida, mas o apelo sagrado remonta a algo superior que transcende o mundo para, misteriosa e paradoxalmente, intervir no curso da história.
Assim, o motivo de a humanidade necessitar da salvação ecoa já no Gênesis, primeiro livro da Bíblia, que, conforme a tradição judaico-cristã e islâmica, narra a criação do mundo e a queda do primeiro homem e da primeira mulher, Adão e Eva, diante do pecado. Embora tenha amargado a dor da infidelidade do mais belo produto de suas mãos, Deus não abandona o ser humano a esmo. Elege um povo, os hebreus, e começa a falar por meio de pessoas especiais, os profetas, sobre a real possibilidade de redenção. Uma atitude drástica que culmina na encarnação do Verbo. É o próprio Deus que visita a Terra e dá início ao que as Sagradas Escrituras denominam singelamente de "plenitude dos tempos" ou "tempo da graça", quando, supõe-se, há então o cumprimento de muitas profecias, inclusive de uma feita lá no Gênesis e que relata a luta constante do bem contra o mal. "Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a sua geração e a geração da mulher".
Ora, se a humanidade caiu pelo erro de uma mulher, foi pela coragem de outra mulher, Maria de Nazaré, que, ao aceitar a maternidade do Filho de Deus, abriu caminho para que a grande luz voltasse a brilhar. Jesus seria um segundo Adão, agora na condição de salvador, de messias, que tomou para si todo o pecado. O véu que separava o altar da assembléia nas sinagogas, e que simboliza a distância entre Deus e o homem, rasgou-se. O contato então passa a ser direto. A graça está liberada para quem assumir a Boa Nova. Tudo no sentido de preparar o encontro final e definitivo da criatura com o Criador, seja na morte ou na segunda vinda do Cristo, no final dos tempos.
No Cristianismo, a cruz, que para os gregos era loucura e para os judeus escândalo, representa salvação. Uma nova ordem emerge no caos. É preciso morrer para viver, é preciso renascer. Da morte brota a vida, realidade demasiado incompreensível à lógica, que sucumbe e se afasta da fé, como denuncia o Papa João Paulo II, na fantástica carta encíclica "Fé e Razão". O apóstolo Paulo, contudo, joga luz na situação. Jesus veio justamente confundir os sábios e os doutores. Daí a escolha estapafúrdia dos humildes, dos pequenos... para ocuparem os primeiros lugares no reino dos céus. Trocando em miúdos, não é o conhecimento ou as coisas materiais que garantem a salvação, mas uma silenciosa e constante revolução interior que também responde pelo nome de conversão. Foto azurara