As boas relações do Vaticano com os Estados Unidos parece que estremeceram de vez. Primeiro, o presidente Barack Obama emitiu nota em que classifica os 36 anos da histórica decisão da Suprema Corte norte-americana favorável à legalização do aborto como um período de maior proteção à saúde da mulher e da delimintação das ações do governo quanto a questões íntimas familiares. Ele disse que todos devem desenvolver esforços no sentido de se evitar a gravidez indesejada e, por conseguinte, a necessidade de interrupção. Na última sexta-feira, 23 de janeiro, como acontece todos anos, desde a polêmica decisão, em 1973, milhares de pessoas contrárias ao aborto saíram às ruas para protestar em Washington.
No mesmo dia, Obama autorizou os primeiros testes clínicos, com células-tronco embrionárias, em pacientes portadores de paralisia. A confirmação veio0 do FDA (Food and Drug Administration), a agência reguladora de fabricação e comercialização de medicamentos e alimentos no país.
Ainda no dia 23, o primeiro presidente negro dos Estados Unidos derrubou dispositivo que proíba a todas as organizações não-governamentais o direito a financiamento do Estado americano para o aborto ou fornecimento de serviços relacionados à prática fora do país.
A reação da Igreja Católica, que combate qualquer iniciativa que atente contra a vida, não tardou. O Vaticano classificou de "arrogância" a atitude de Obama. "É a arrogância de quem acredita que faz o que é justo ao assinar um decreto que apoia o aborto e, portanto, a destruição de seres humanos", criticou o Arcebispo Rino Fisichella, presidente da Academia Pontifícia para a Vida, numa entrevista ao jornal italiano "Corriere della Sera".
Fisichella bateu forte também sobre a liberação das pesquisas com células-tronco embrionárias (leia-se óvulo fecundado). "Minha primeira impressão é que cedeu à pressão das multinacionais do setor. O problema não é científico, e sim ideológico e econômico".
O presidente Barack Obama segue a linha de seu partido, o Democrata, ao posicionar-se favoravelmente a respeito, por exemplo, do casamento homossexual, do aborto e das pesquisas com células-tronco embrionárias. A seu lado, a Igreja mantém-se fiel à linha de defesa da vida e jamais aplaudirá o desrespeito a ela, sob que circunstâncias for. No que faz muito bem, porque, aceite-se ou não, a Igreja representa na contemporaneidade o pilar mais visível de uma lembrança crucial: o homem não é Deus. Donde conclui-se que haverá grandes embates nos próximos quatro anos.
É preciso entender, no entanto, que o povo americano elegeu Obama, não por causa da moral mas da urgência de se forjar um líder carismático o suficiente para conquistar a confiança interna e externa à maior potência do planeta. A crise econômica internacional e os desmandos do governo republicano de George W. Bush contribuíram de forma decisiva no sentido de conduzir Obama à Casa Branca, a despeito até de sua ascendência muçulmana. Hoje, aliado à crise, o medo do terrorismo assombra terrivelmente a sociedade yanquee.