sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Família, antídoto contra "a violência moral e psicológica que grassa a sociedade atual"

Não é à toa que a Igreja Católica costuma figurar entre as instituições de maior credibilidade do país em praticamente todas as pesquisas do gênero. Mais uma vez, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil marcou preciosos pontos na escolha do tema da Campanha da Fraternidade que, neste ano, diz respeito à segurança pública. Um assunto que certamente chama a atenção de grande parte da população, já habituada aos altíssimos índices de criminalidade registrados no dia-a-dia da nação.

Montes Claros é um exemplo triste de tal realidade. Apenas nos dois primeiros meses de 2009, o município de quase 400 mil habitantes, considerado a capital do Norte de Minas, computou 14 assassinatos, dos quais espantosos 12 no curtíssimo fevereiro. A maioria dos crimes, conforme a polícia, tem ligação com o tráfico e consumo de drogas. Quem não se recorda da morte horrível do garotinho Sidney Júnior, raptado, seviciado e espancado até a última gota de vida. A ironia é que o algoz da criança, conhecido como "Dé", um rapaz aparentemente portador de distúrbio mental e usuário de droga, ao que tudo indica fora também vítima de uma sociedade desigual. Soube-se quando de sua prisão que, na infância, Dé alimentava-se junto com os porcos. Tudo isso choca e enoja. Mais. Deixa latente uma constatação inquietante. Não basta aprimorar o sistema carcerário e uma possível redução da maioridade penal somente agravará a situação, porque, sinceramente, lugar de criança e adolescente é na escola e não na prisão. Em vez de amenizar a situação, nasceria outro problema, a vergonha e o peso de encarcerar meninos infratores. Então, o que fazer?

Durante o lançamento da Campanha da Fraternidade, na Quarta-Feira de Cinzas, o Arcebispo Metropolitano de Montes Claros, Dom José Alberto Moura, foi de uma sobriedade magnífica ao expor o drama. Há a urgência da criação de políticas públicas que garantam maior segurança para os brasileiros. Todo mundo concorda. Mas se essas ações governamentais não tiverem o amparo da e na sociedade, de nada adiantará. Dom José Alberto advertiu que, na verdade, a segurança deve começar nas famílias. "Famílias saudáveis e estruturadas", completou, são o antídoto contra "a violência moral e psicológica que grassa a sociedade atual". O Papa João Paulo II já alertava para o fato. "O futuro da humanidade passa pela família", sintetiva o pontífice. Noutras palavras, famílias ajustadas produzem cidadãos conscientes de seus deveres e responsabilidades. Vale a reflexão. Foto de minha autoria

Brasil na contramão da história

Enquanto no Brasil jornal de grande circulação ameniza os efeitos da horrenda ditadura militar que, de 1964 a 1984, aterrorizou o país, Argentina e Uruguai, igualmente penalizados por períodos de chumbo, decidiram acabar com a impunidade. Na Argentina já é passado a Justiça Penal Militar, que amparava os assassinos de farda atuante de 1976 a 1983. Agora, eles serão julgados pela justiça civil comum. No Uruguai, os parlamentares acabaram com a Lei da Caducidade, que anistiava militares e policiais acusados de violação aos direitos humanos.

E no Brasil... . Bem, o Brasil continua um berço esplêndido para os militares que, por meio do golpe, saquearam a liberdade, mataram jornalistas, estudantes e todos os que, de alguma maneira, discordavam da lei da baioneta.

"Ditabranda" da Folha 2

Ainda a propósito do infeliz editorial da Folha de S. Paulo, que adjetiva os Anos de Chumbo como "ditabranda", na tentativa de amenizar seus efeitos sobre a sociedade, vale recordar o que fez o general Dwight Eisenhower, assim que se deparou com as vítimas dos campos de concentração, após o fim da 2ª Guerra Mundial (1939-1945). Ele ordenou que fosse tirado o maior número possível de fotos, além de convocar os alemães das cidades vizinhas até os locais onde milhões de judeus foram mortos em câmaras de gás e, inclusive, ajudasse a enterrar os corpos. "Que se tenha o máximo de documentação - façam filmes, gravem testemunhos - porque, em algum momento ao longo da história, algum idiota se vai erguer e dirá que isto nunca aconteceu", alertou Eisenhower. Hoje, no Reino Unido, não é permitido usar o termo holocausto, em respeito a muçulmanos, que garantem que o genocídio nunca existiu.

"Tudo o que é necessário para o triunfo do mal, é que os homens de bem nada façam", atestou o filósofo e político anglo-irlandês Edmund Burke.

A Folha de S. Paulo deveria mostrar em suas páginas as fotos do jornalista Vladimir Herzog, cruelmente assassinado nos Anos de Chumbo, e de muitos estudantes mortos em conflitos de rua com militares... .

"Ditabranda" da Folha

Deu o que falar editorial em que a Folha de S. Paulo adjetiva de "ditabranda" o período de 1964 a 1984, quando os militares assumiram o poder no Brasil. O texto foi para comentar a vitória do presidente Hugo Chaves em referendo, na Venezuela, e acabou por cair na armadilha do revisionismo malfeito. Uma tentação que se torna mais latente à medida que o tempo passa e a lembrança começa a minimizar o impacto de um fato, diante de argumentos nascentes claramente destinados a questionar se essa ou aquela ação teve, de fato, o peso histórico a ela muitas vezes imputada.

Não li o editorial da Folha, apenas tomei conhecimento do imbróglio a partir do conteúdo do site Comunique-se. Mas ouso conjecturar a possibilidade de a iniciativa do jornal do grupo Frias fazer parte de uma estratégia que, na verdade, existe desde que foi promulgada a Lei da Anistia, em 1979. Sabe-se que ela abriu brechas que originaram monstruosos abismos na tragédia que se abateu sobre o país por ocasião do golpe militar. Embora de autoria do Poder Executivo, na época sob a batuta dos generais, a Lei da Anistia chegou às vias de fato graças à pressão popular. Antes , o MDB, partido de oposição que deu origem ao atual PMDB, encaminhara ao Congresso proposta de “anistia ampla, geral e irrestrita”. O projeto governista, todavia, excluía da anistia os condenados por supostos atos terroristas e tampouco previa punição para os militares acusados de tortura ou pedia esclarecimentos acerca dos chamados "desaparecidos" políticos.

De lá para cá houve iniciativas tímidas de dar continuidade à Lei da Anistia. A Lei 9.140, promulgada pelo governo Fernando Henrique Cardoso em 1995, reconhece a responsabilidade estatal por mortes e desaparecimentos políticos, ocorridos durante a ditadura. Matéria veiculada na versão online da própria Folha (de 22 agosto de 2004), em comemoração aos 25 anos da lei, afirma que "FHC também instalou a Comissão da Anistia em 2001, e, em novembro de 2002, sancionou a lei que prevê indenizações para perseguidos políticos entre 18 de setembro de 1946 e 5 de outubro de 1988".

Em meados do ano passado, os ministros Tarso Genro (Justiça) e Paulo de Tarso Vanucci (Direitos Humanos) defenderam a abertura de arquivos do regime linha-dura dos generais, após 23 anos de seu fim. Os militares, ao que parece, não aceitam rever a questão e, já há algum tempo, manifestam-se contrários à intenção de Genro e Vanucci cujas fichas de guerrilheiros foram devastadas no Clube Militar do Rio. Ambos acreditam que, ao contrário do que se pensa, cópias dos arquivos dos Anos de Chumbo e que oficialmente teriam sido queimados podem ainda existir, dado à existência de suas fichas. Reportagem recente da revista Veja, ícone confesso da ultradireita nacional, ridiculariza a intenção do governo ao classificar de suficientes as investidas já feitas neste sentido no país.

O grande problema é que se tornou comum analisar a Lei da Anistia como uma faca de dois gumes. "Assim como eram anistiados os que tinham sido punidos por crimes políticos, também estavam perdoados os representantes do Estado que haviam cometido qualquer espécie de violência política. A lei, porém, não menciona em nenhum momento a palavra "tortura"", destaca a matéria virtual. Daí o cerne de toda a questão: evitar o que eles chamam de "caça às bruxas", garantindo aos brutamontes de farda a absolvição silenciosa.

Certamente com a aquiescência da Caserna, o sepultamento do assunto virou caso de polícia, com o perdão do trocadilho, interessante a alguns segmentos da sociedade brasileira. E o tempo, que de aliado de primeira hora transformara-se em algoz das vítimas da truculência militar, caminha hoje ao lado de questionamentos vis sobre a imoralidade desses 20 anos de chumbo.

Enquanto o Brasil resistir à urgência de passar a limpo esse terrível episódio de sua história, seus mortos não descansarão em paz e tampouco as gerações futuras poderão orgulhar-se de uma pátria que sequer teve a dignidade, e coragem, de enfrentar os fantasmas de farda. Tudo porque institucionalizou a impunidade.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

E o oscar vai para... "Quem quer ser um milionário?"

E no dia 22 de fevereiro, a festa de gala do cinema colocou no topo do mundo "Quem quer ser um milionário?", que conta a história de um indiano que ganha U$ 1 milhão num programa de perguntas e respostas. Das dez indicações que recebeu, o filme levou oito oscar, dois deles de ponta - melhor filme e melhor diretor. A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood dá, assim, sua modesta contribuição para tempos de crise econômica internacional, em que dez entre dez americanos sonham em fugir das agruras da recessão. Quem quer ser... acaba justamente por vender a esperança de que o impossível às vezes acontece. E isso, convenhamos, é a especialidade de Hollywood. O diretor inglês Danny Boyle confirma que, na verdade, "queria que as pessoas levassem do filme era (...) essa resistência das pessoas, que é de tirar o fôlego, e a alegria delas apesar das circunstâncias, essa ânsia de vida". Ele assim rebateu as críticas de que seu trabalho teria glamourizado a pobreza no país de Gandhi. Penso que, não fosse as circunstâncias atuais, o grande vencedor seria "O curioso caso de Benjamin Button". O trabalho do diretor David Fincher teve 13 indicações, entre as quais quatro de ponta (melhor filme, melhor diretor, melhor ator e melhor atriz coadjuvante). Abocanhou apenas três: direção de arte, efeitos especiais e maquiagem. No mais, a 81ª edição do Oscar transcorreu dentro do previsto. O prêmio de melhor ator coadjuvante foi mesmo para Heath Ledger, que morreu no ano passado e agora recebe uma homenagem póstuma pela brilhante interpretação de Coringa, vilão de "Batman - O cavaleiro das trevas".