O caso da menina de 9 anos que, após ser abusada sexualmente pelo padrasto, na capital pernambucana do Recife, ficou grávida de gêmeos e, com auxílio médico, tomou remédio para abortar, tem gerado polêmica. O imbróglio tomou forma a partir do momento que o Arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho, condenou veementemente a interrupção da gestação, sob argumento de que a vida está acima de tudo e de todos e a Deus pertence. O líder religioso foi além e excomungou as pessoas envolvidas na prática do aborto.
A legislação brasileira permite o aborto em apenas dois casos: estupro e risco de morte da mulher. Segundo explicação dos médicos, a criança fora vítima de violência sexual e a continuidade da gravidez representaria risco à sua saúde. Portanto, a atitude tem amparo legal.
A situação muda de figura quando a Igreja Católica entra no meio. O problema não está na divergência de opiniões, algo, aliás, bastante salutar numa democracia. A questão crucial é a maneira deplorável como a imprensa reporta o assunto para a sociedade. Ora, o princípio básico do jornalismo remete à isenção - o que não significa imparcialidade ou objetividade, impossíveis de se alcançar em se tratando do homem, o jornalista, um ser essencialmente subjetivo, que é quem faz as reportagens -, que assegura, por meio da multiplicidade de fontes, informação confiável porque traz os dois lados do fato. No caso presente, a exemplo de tantos outros que pipocam aqui e acolá, a mídia ecoa a voz de pessoas cujo olhar prende-se exclusivamente à sua área de atuação. Os médicos vislumbram somente a medicina. Ministros o pensamento liberal pró-aborto e suposta defesa dos interesses femininos. A mãe da menina, de quem emanou a ordem para induzir o aborto, a revolta perfeitamente compreensível advinda da monstruosidade ocorrida.
Na hora de expor a posição eclesial, entretanto, jornais, rádios, revistas, tvs e internet exploram a emoção ao máximo e se esquecem de abordar a fé, quesito primordial para que a religião seja compreentendida. A Igreja Católica não poderia agir de maneira diferente, sob o perigo de submergir na incoerência. Defende que a vida é dom sagrado, desde a concepção até o declínio natural. Não há que se conversar sobre a questão. O episódio, então, suscita análise nos âmbitos da razão e da fé, nunca do sentimento puro e simples. Da razão, porque nada justifica matar duas vidas (os embriões já formados). Da fé, porque certamente a gravidez não evoluiria, dado à estrutura física da mãe-criança, e os fetos teriam grandes chances de serem expelidos espontaneamente.
Daí que se pode discordar da atitude do Arcebispo de Olinda e Recife. Direito reservado a cada um. O que não convém é ridicularizar, estereotipizar, adjetivar nas entrelinhas de irresponsável uma instituição já no 3º milênio de existência e que, no decorrer das eras, conserva impressionante coesão histórico-geográfica. Seria até mais fácil - e popular - para a Igreja Católica concordar com o aborto da menina do Recife. Ganharia a simpatia das massas. Não é de seu feitio, porém, agir de forma oportunista. Os valores que prega têm caráter eterno e são observados ao longo de uma trajetória respeitável, digna, não sem erros, é verdade, mas sempre recolocada nos trilhos quando necessário. Não à toa, a Igreja costuma figurar entre as instituições de maior credibilidade em pesquisas do gênero.