sábado, 14 de março de 2009

Padre Tiãozinho: quatro anos de saudades

Neste sábado, 14 de março, completam-se quatro anos de morte do Cônego Sebastião Raimundo de Castro. Mais conhecido como Padre Tiãozinho, ele era irmão de sangue e colega de Ordem Premonstratense do hoje Arcebispo Emérito Dom Geraldo Majela de Castro. Foi um sacerdote que deixou no coração dos fiéis que tiveram o prazer de sua companhia um sentimento de doçura muito difícil de ser encontrado nos tempos de hoje. Certa vez, a uma aluna sua no antigo Colégio São Norberto, dirigido pelo célebre Cônego Adherbal Murta de Almeida durante 32 anos, também um "padre de batina branca", tratou de enaltecer a importância do curso normal. A moça estava meio desanimada com o despretígio da docência, já sentido nos idos de 1980. As palavras de Padre Tiãozinho a respeito da arte de ensinar foram tão incisivas e convincentes que a estudante retomara o gosto de aprender. Recuperara, inclusive, o entusiasmo para com a profissão que escolhera.

Mas o segundo dos nove filhos de Seu Eunápio e Dona Ana era mesmo um padre. Não se cansava de relatar as situações que vivera e os obstáculos que vencera para continuar firme na missão que, afinal, Deus confiara-lhe. Essa sensação de realização podia facilmente ser percebida na maneira que Padre Tiãozinho conduzia sua vida sacerdotal. Nas homilias, costumava falar com a alma. Daí a vibração observada na voz - em alguns momentos até saía embargada, especialmente quando discorria sobre Jesus - e o cuidado de, no cotidiano, experienciar o que pregava, alijando para longe a hipocrisia. Dava a impressão de ter escutado o que Madre Tereza de Calcutá preconizara: um testemunho vale mais que mil palavras.

O bom humor também constituía sua marca. Diante da admiração das pessoas quanto à semelhança física existente entre ele e o irmão arcebispo, protestava veementemente assim que alguém tocava na suposição de ambos terem a mesma idade. "Nada disso, eu sou muito mais novo", esclarecia para um atônito interlocutor, por certo envergonhado com a gafe e, agora, convicto de que havia uma imensa diferença de anos a separá-los. "Eu sou de 1932 e ele de 1930", afirmava, num esforço para conter o riso. Na verdade, Padre Tiãozinho nutria imensa admiração pelo irmão. Tanto que no depoimento que gravou para as comemorações das Bodas de Ouro Sacerdotais de Dom Geraldo, em 2003, quase não conseguiu expor as ideias, devido à emoção.

Outra característica de Padre Tiãozinho referia-se à Mãe de Jesus. Mariano incorrigível, ele transbordou de alegria em 2002, quando foi alçado à condição de primeiro pároco da Paróquia Nossa Senhora Rosa Mística. No interior do belo templo, construído numa praça do bairro São Luiz, está a imagem de Rosa Mística, vinda diretamente de Montichiari (Itália) onde houve aparições da Virgem, de 1947 a 1976. Místico que era, Padre Tiãozinho logo entendeu a mensagem divina. Em português, Montichiari significa Montes Claros, contava com brilho nos olhos.

Padre Tiãozinho morreu exatos sete dias após a Arquidiocese de Montes Claros perder seu Bispo Emérito, Dom José Alves Trindade, no dia 14 de março de 2005, vítima de câncer. Tinha 73 anos, 48 dos quais dedicados à Igreja. Foi ordenado padre no dia 21 de setembro de 1957. Antes de assumir a Paróquia Nossa Senhora Rosa Mísca, exercera o ministério em Bocaiúva (MG) e nas paróquias locais da Matriz de Nossa Senhora e São José e de São João Batista.

sexta-feira, 13 de março de 2009

A revolução feminina

* Luiz Fernando Veríssimo

Conversa entre pai e filho, por volta do ano de 2031, Sobre como as mulheres dominaram o mundo.

- Foi assim que tudo aconteceu, meu filho... Elas planejaram o negócio discretamente, para que não notássemos. Primeiro elas pediram igualdade entre os sexos. Os homens, bobos, nem deram muita bola para isso na ocasião. Parecia brincadeira. Pouco a pouco, elas conquistaram cargos estratégicos: Diretoras de Orçamento, empresárias, Chefes de Gabinete,Gerentes disso ou daquilo.

- E aí, papai?

- Ah, os homens foram muito ingênuos. Enquanto elas conversavam ao telefone durante horas a fio, eles pensavam que o assunto fosse telenovela... Triste engano. De fato, era a rebelião se expandindo nos inocentes intervalos comerciais. "Oi querida!", por exemplo, era a senha que identificava as líderes. "Celulite" eram as células que formavam a organização. Quando queriam se referir aos maridos, diziam "O regime".

- E vocês? Não perceberam nada?

- Ficávamos jogando futebol no clube, despreocupados. E o que é pior: continuávamos a ajudá-las quando pediam. Carregar malas no aeroporto, consertar torneiras, abrir potes de azeitona, ceder a vez nos naufrágios. Essas coisas de homem.

- Aí, veio o golpe mundial!

- Sim o golpe. O estopim foi o episódio Hillary-Mônica. Uma farsa. Tudo armado para desmoralizar o homem mais poderoso do mundo. Pegaram-no pelo ponto fraco, coitado. Já lhe contei, né? A esposa e a amante, que na TV posavam de rivais eram, no fundo, cúmplices de uma trama diabólica. Pobre Presidente...

- Como era mesmo o nome dele?

- William, acho. Tinha um apelido, mas esqueci.... Desculpe filho, já faz tanto tempo...

- Tudo bem, papai. Não tem importância. Continue...

- Naquela manhã a Casa Branca apareceu pintada de cor-de-rosa. Era o sinal que as mulheres do mundo inteiro aguardavam. A rebelião tinha sido vitoriosa! Então elas assumiram o poder em todo o planeta. Aquela torre do relógio em Londres chamava-se Big-Ben, e não Big-Betty, como agora... Só os homens disputavam a Copa do Mundo, sabia? Dia de desfile de moda não era feriado. Essa Secretária Geral da ONU era uma simples cantora. Depois trocou o nome, de Madonna para Mandona...

- Pai, conta mais...

- Bem filho... O resto você já sabe. Instituíram o Robô. Troca-Pneu como equipamento obrigatório de todos os carros... A Lei do Já-Prá-Casa, proibindo os homens de tomar cerveja depois do trabalho... E, é claro, a famigerada semana da TPM, uma vez por mês....

- TPM ???

- Sim, TPM... A Temporada Provável de Mísseis... É quando elas ficam irritadíssimas e o mundo corre perigo de confronto nuclear....

- Sinto um frio na barriga só de pensar, pai....

- Sssshhh! Escutei barulho de carro chegando. Disfarça e continua picando essas batatas... ]

* Escritor, jornalista, humorista e cronista

(e-mail enviado pela colega Daniela Ferraz)

Sarney e seu "boi de piranha"

O cinismo político no Brasil é algo inacreditável. Agora há pouco, o presidente do Senado, José Sarney, mostrou indignação quanto à repercussão negativa do pagamento de horas extras na Casa, mesmo em janeiro, quando ali não há expediente administrativo ou parlamentar. Ah! O benefício foi majorado em 111%, o que elevou o teto de R$ 1.250 para R$ 2.640. O coronelão maranhense disse que o Senado virou "boi de piranha", numa alusão ao animal que os vaqueiros jogam no rio onde há piranha, para servir de isca e, assim, os demais poderem atravessar incólumes.

O "boi de piranha", que remete a um sacrifício digno em prol da maioria, não merecia ser equiparado ao Senado Federal. Não, definitivamente não. Não àquele braço do Congresso Nacional que, em fevereiro, não votou um projeto sequer, saiu para o Carnaval e só retornou em 3 de março, três dias após os trabalhadores sérios e honestos, que labutam para conseguir ganhar um salário ínfimo, se comparado aos estratosféricos R$ 16,5 mensais, além da verba indenizatória de R$ 15 mil, pagos a cada um dos 81 senadores. Valores que, aliás, não sofreram nenhum corte a despeito do ocorrido.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Frei discorda de excomunhão

Frei Betto assinou artigo no jornal Estado de Minas de hoje, em que discorda da decisão do Arcebispo de Olinda e Recife de excomungar todos os envolvidos no aborto da menina de 9 anos que, após ser violentada pelo próprio padrasto, engravidou de gêmeos, em Alagoinha (PE). Além disso, o frade dominicano mostrou desagrado com a atitude do prelado, que, assim, exigia da criança levar adiante uma gestação que representava risco à sua saúde.

O fato ainda há de produzir acaloradas discussões, mas uma coisa não pode ser esquecida. Quando Frei Betto discorre sobre a falta de consenso em torno de quando, de fato, inicia a vida no útero materno - seja nos campos científico, religioso ou filosófico -, surge situação que me recorda uma prática típica do Direito. Em caso de dúvida, todo réu é inocente. Se não há como provar que um embrião é vida, também não há como provar o contrário. A Igreja Católica não admite nenhuma forma de aborto voluntário. A legislação admite o ato apenas nos casos de estupro ou de risco de morte da mulher. Frei Betto diz não apoiar o aborto, embora defenda sua descriminalização em certas ocasiões.

À parte a polêmica, o lamentável de tudo, entretanto, remete ao estrago que a monstruosidade do abuso sexual e o trauma de um aborto causou na mãe-menina. Algo que, creio, somente psicólogos ou psiquiatras possam dar a dimensão exata.

Quem tem telhado de cristal...

No Brasil as coisas acontecem atabalhoadamente. Isso porque não existe moral para se exigir moral, entende? Veja o caso dos supersalários pagos no Tribunal de Contas do Estado de Minas. O caso veio à tona durante a Operação Pasárgada, no começo do ano passado, quando a Polícia Federal inidiciou três conselheiros do TCE, por corrupção passiva e formação de quadrilha. Na época, a PF apurou que, ali, as remunerações ultrapassam estratosféricos R$ 50 mil mensais. Pois bem. Como a Assembleia Legislativa, só para variar, não exerce sua função de zelar pelo bem comum, com ações que garantam a harmonia social, e até o momento não se manifestou sobre o imbróglio, o TCE teve o desplante de engrossar a voz. Aprovou solicitação para abertura de Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar a situação, com o detalhe, entretanto, de extendê-la aos três poderes - Executivo, Legislativo e Judiciário -, especialmente ao Ministério Público Estadual, que já montou força-tarefa para devassar o TCE.

O que esperar de tudo isso? Punição, justiça... . Creio que não. Simplesmente porque, ao que parece, não há interesse na questão. Quem tem telhado de cristal, por certo não há de jogar pedra no telhado do outro, correto? E nós, caríssimos, ficamos aqui a observar o desenrolar trágico dos acontecimentos.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Ah! Ronaldo, na Seleção não!

Tempos bicudos esses. Crise, que gera o fantasma do desemprego, que causa medo de gastar, que tira o dinheiro de circulação, que fecha empresas, que causa desemprego, que... . Taí um cenário desolador, terreno fértil, entretanto, para a (re)criação de ídolos que distraem as massas. No Brasil, nada melhor que o futebol para cumprir com esmero a missão do entorpecimento. Veja o caso do atacante Ronaldo, que um dia chegou a ser Fenômeno. Estreou no Corínthians e, logo no 2º jogo, marcou um gol de cabeça - nossa! justo de cabeça, que nem é a especialidade dele - que salvou o Timão de perder para o arquirrival Palmeiras, àquela altura, nos acréscimos, na frente no placar.

Bastou isso para que a mídia entronizasse Ronaldo como um dos melhores do mundo, cotado até - pasmem - para a Seleção Brasileira. E o Fenômeno (?) não se fez de rogado. Apareceu no "Domingão do Faustão" - um besteirol sem tamanho -, onde ultrapassou os limites da pieguice. Indagado sobre seu peso que, aliás, continua muito acima do ideal, recordou a época difícil em que chegou no Cruzeiro Esporte Clube e passou fome. Bem respondeu o presidente celeste Zezé Perrella. Fome, Ronaldo passou no Rio de Janeiro, quando não conseguia uma chance de jogar no Flamengo, seu clube do coração. Não fosse o Cruzeirão velho de guerra, que lhe deu oportunidade de mostrar tudo o que sabia, talvez amargasse o ostracismo certamente experimentado por muitos pequenos craques nacionais, nunca descobertos.

Mas o mero detalhe da ingratidão é apenas um ponto da história, até há pouco digna, de Ronaldo Fenômeno. Pois o atacante deixou-se inebriar pela possibilidade e se acha em condições de ir para o escrete canarinho. Sua casa, como o próprio arvorou-se em afirmar. Só não está lá por causa de perseguição. O técnico Dunga que, mesmo a despeito da incompetência na arte de treinar, permanece no comando amarelo, apressou-se em esclarecer que não, não há nada contra Fenômeno. Que falta faz o Felipão, o treinador pentacampeão. Homem suficiente para recusar a convocação de Romário, então um dos grandes do futebol, para a Copa de 2006. Nem o presidente da Confederação Brasileira de Futebol, Ricardo Teixeira, convenceu Felipão, que não teve medo e assumiu a responsabilidade. Se não trouxesse o caneco, o mundo desabaria e Romário triunfaria, tripudiaria. E não é que o caneco veio, com Ronaldo e tudo.

Pobre de nós, mortais que somos e que, apaixonados por futebol, vemo-nos obrigados a engolir como técnico o símbolo de um dos períodos mais feios do esporte das multidões - a Era Dunga, de Sebastião Lazaroni, lembra-se? - e, agora, sujeitos à presença de um ex-craque, louco para recuperar o prestígio perdido à custa do brilho dourado e mágico de uma camisa gloriosa. Ah! Ronaldo, assim não. Justo na Seleção? Vai viajar pelo mundo, divertir, beber, farrear... gastar seus milhões. Sua contribuição já está de bom tamanho. Saia com honra dos estádios, homem! Foto Cosmo

Dom Geraldo sai em defesa do Arcebispo de Olinda e Recife: a excomunhão é lei da Igreja

Durante a Missa em Ação de Graças pelos 45 anos do pároco da Catedral Metropolitana Nossa Senhora Aparecida, Padre Dorival Souza Barreto Júnior, o Arcebispo Emérito Dom Geraldo Majela de Castro, de 78, enfatizou o “dom da vida”. Ele aproveitou para, no contexto da Quaresma, “um tempo de salvação que Deus nos dá para que possamos valorizar mais nossa vida”, sair em defesa de seu colega de episcopado, o Arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho, alvo de críticas por anunciar a excomunhão das pessoas envolvidas no aborto de uma menina de 9 anos, na capital pernambucana. A Celebração Eucarística foi às 18h30min da última terça-feira, 10 de março, no majestoso templo, centro de Montes Claros, onde estiveram presentes cerca de 100 pessoas. Além do aniversariante, também concelebrou o vigário paroquial da Catedral, Padre José Honório de Andrade.

Na homilia, Dom Geraldo Majela enfatizou que a vida é “o maior presente de Deus” e que cabe somente a Ele tirá-la. Quando uma pessoa mata outra, comete “um dos maiores pecados”, advertiu ao exemplificar com o aborto. Nesses casos, a lei da Igreja prevê a pena de excomunhão para os que participaram da prática. “Não é o bispo que excomunga. É lei da Igreja e deve ser seguida, independentemente de qualquer coisa. Está na Bíblia. Mesmo se o Arcebispo de Olinda e Recife não tivesse anunciado em público, todas aquelas pessoas estariam automaticamente excomungadas”, comentou para, logo a seguir, reforçar as palavras do próprio Dom José Cardoso, que já aventou a possibilidade de remissão. “O que o bispo pode fazer é conceder o perdão”, esclareceu.

O Arcebispo Emérito de Montes Claros ainda foi taxativo no que diz respeito à legislação brasileira, que permite a interrupção da gravidez em dois momentos: estupro e risco de morte da nulher. Segundo os médicos que deram remédio para a criança expelir os fetos gêmeos que gestava, a pedido da mãe da garota, o ato teve amparo legal, pois a menina fora vítima de violência sexual, cometida pelo padrasto na localidade de Alagoinha (PE), além de não possuir condições de levar a gravidez adiante. Dom Geraldo Majela preveniu que “nenhuma lei humana pode estar acima da lei divina, se a lei dos homens é favorável à morte é contra a lei de Deus”. Disse que a Igreja, que condena todo tipo de aborto, não deve ser acusada de retrocesso ou atraso por causa da posição assumida, simplesmente porque a instituição, ao defender a vida, mantém fidelidade às Sagradas Escrituras.

Para concluir, Dom Geraldo ensinou que o caminho para a humanidade conseguir a felicidade surge a partir da conversão. “Jesus morreu na cruz para nos salvar das agruras do pecado”, comentou, numa referência à firme opção de muitos a favor da vida. Mencionou Padre Dorival Barreto, que sentiu e atendeu ao chamado de Deus para o sacerdócio. Baiano de Jequié, o pároco da Catedral nasceu no dia 10 de março de 1964. É filho de Dorival Souza Barreto e Maria da Conceição Chaves. Foi ordenado no dia 10 de janeiro de 1988, junto com o então diácono Ivan Clementino de Jesus, Padre Ivan, que, hoje, é capelão militar em Brasília. Exerceu o ministério em várias paróquias até que, por dois anos, de 2000 a 2002, concluiu doutorado em Teologia Dogmática na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma, Itália. Assim que retornou da Cidade Eterna, tomou posse como pároco da Catedral e sucessor de Monsenhor Antônio Monteiro Alencar. Foto de minha autoria

terça-feira, 10 de março de 2009

Igreja e Maçonaria

Na quinta-feira da semana passada, o Arcebispo Metropolitano Dom José Alberto Moura, de 65 anos, protagonizou um ato que, para muitos, já pode ser classificado como histórico. Participou de reunião branca da Maçonaria, na Loja Deus e Liberdade, na avenida Mestra Fininha, centro de Montes Claros. Trata-se de iniciativa que transcende, e muito, o motivo do encontro - criar parceria visando à concretização de medidas que promovam a segurança pública, tema da Campanha da Fraternidade 2009 - para assumir condição de verdadeiro marco.

A constatação encontra amparo no fato de que, em termos de Igreja Católica, às vezes o gesto vale mais que a palavra propriamente dita ou escrita. Caso, por exemplo, da divulgação do famoso, e temido, 3º segredo de Fátima. No ano 2000, transição do século XX para o XXI, o Papa João Paulo II revelou o interpretação da última profecia atribuída a Maria, mãe de Jesus, que, em outubro de 1917, teria aparecido a três pastorinhos na cidade de Fátima, em Portugal, hoje um dos maiores santuários marianos do mundo. Disse que o conteúdo remetia basicamente à perseguição sistematizada de ateus à Igreja, de que o próprio papa fora vítima, no atentado que quase lhe tirou a vida, no dia 13 de maio de 1981, data de especial devoção à Virgem de Fátima. Ainda na virada do milênio, o Pontífice questionou o conceito de fim de mundo, muitas vezes bandeira da própria Igreja. Tanto numa como noutra investida vaticana, percebe-se a tentativa de diferenciar a Igreja das seitas que, aproveitando o contexto e as alusões de Nostradamus à consumação dos tempos, supostamente marcada para o ano 2000, acabaram por causar pânico em muitos fiéis.

Então, fica aberta a brecha para se entender o real peso da atitude de Dom José Alberto, que, prestes a completar dois anos à frente da Arquidiocese de Montes Claros - em 14 de abril -, já deu mostras de que preza o diálogo e, nele, a unidade. Não à toa, o líder religioso, que faz questão de perfumar onde quer que chegue com fino senso de humor, recebeu a incumbência direta da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil de presidir a Comissão Episcopal Pastoral para o Diálogo Ecumênico e Inter-Religioso. Marcou pontos preciosos. Um verdadeiro gol de placa.

Para melhor absorver o impacto da visita de um arcebispo, que ainda é referência para três dioceses (Januária, Janaúba e Paracatu), integrantes da Província Eclesiástica de Montes Claros, a um templo maçônico, torna-se necessário retornar ao passado. Saber quando e por que houve atritos entre Igreja e Maçonaria. Episódio, aliás, que originou lendas e animosidades. A Maçonaria incomoda sobretudo por ser uma sociedade secreta, que reúne homens que se destacam profissionalmente na sociedade. Terreno fértil para emergir verdadeiras culturas que anexam a instituição ao mal. As de maiores apelos populares são o bode preto e a obrigação de renegar Deus. Coisas que só a ignorância explica.

Pois bem. Apesar de reconhecer a existência de divergências acerca do assunto, Marcelo dos Reis Tavares, em trabalho desenvolvido para Unesp de Franca (SP), considera razoável aceitar que a Maçonaria despontou como instituição a partir da fundação da Grande Loja de Londres, em 1717, pelos pastores protestantes James Anderson e J. T Desaguliers. A obra sublinhou a passagem da Maçonaria operativa, que os contrutores das catedrais criaram na Idade Média, para a Maçonaria especulativa ou filosófica, que envolvia, além de pedreiros, livres pensadores. O apogeu maçônico ocorrera durante a Revolução Francesa, de 1789. Alguns acreditam que a Maçonaria seja fruto típico do Iluminismo, dado seu caráter racional e liberal. Assim, é comum encontrar ali ideias de secularização, democracia de toda espécie e crença num poder criador, denominado de Grande Arquiteto do Universo. Certos estudiosos, porém, atestam que a Maçonaria remonta ao período bíblico do Rei Salomão, que contratara o arquiteto Hiram para edificar o Templo de Jerusalém, ou mesmo antes, na era pré-dilúvio.

A relação da Igreja com a Maçonaria foi cordial até o surgimento de questões religiosas. Era comum a presença de membros da hierarquia eclesiástica na Maçonaria e de maçons nas ordens e congregações religiosas. Até que, conforme Marcelo Tavares, nos pontificados de Pio IX (1846-1878) e Leão XIII (1878-1903), intensifcaram-se na Igreja Católica o combate ao liberalismo e racionalismo e seus efeitos nos campos religioso, filosófico e político. Trocando em miúdos, a Igreja fechava-se para a modernidade e solicitava completa submissão dos poderes temporais à autoridade papal, que ia "além dos Alpes". Daí a denominação de ultramontanismo. Os principais alvos do combate eram o protestantismo e a Maçonaria, encarada como uma das responsáveis pela unificação italiana, que, a propósito, redundou na perda dos estados pontifícios.

No Brasil, as reformas ultramontanas afetaram a posição da Igreja no Império, que tinha vários membros na Maçonaria. Foi um tempo difícil, porque o imperador tinha a prerrogativa de aceitar ou não as indicações da Santa Sé de pessoas para o episcopado. Não raro, o governante fazia a escolha que julgasse correta.

Há que se mencionar também a encíclica Quanta Cura, que Pio IX promulgou em 1864 e que trazia o Syllabus, palavra de origem grega que significa lista de erros. Nesse anexo, o papa excomunga os maçons e discorre sobre a inconveniência de católicos frequentarem a Maçonaria. O professor, pesquisador e historiador Antônio de Queiroz e Silva, do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná, cita Wagner Veneziani Costa para contar que, "em 1983, o cânon da excomunhão desapareceu, junto com a menção direta à Maçonaria". A impressão de que a Igreja Católica tirou restrições à Maçonaria, entretanto, desmorona na declaração assinada pelo cardeal Joseph Ratzinger, então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. No documento, o atual Papa, Bento XVI, relata que "os princípios da Maçonaria seguem sendo incompatíveis com a doutrina da Igreja, e que os fiéis que pertençam a associações maçônicas não podem ter acesso à Sagrada Comunhão". Não proíbe, entretanto, uma aproximação estratégica, amigável entre as duas instituições. Foto Cícero Campos

Política da falta de vergonha na cara: opulência bandida em contraste com a miséria escandalosa

A política da falta de vergonha na cara parece não ter fim no Brasil. Ao contrário, a cada dia consegue superar-se e chafurdar-se ainda mais na lama. No dia em que a imprensa alardeia aos quatro cantos que, no país, o uso de utensílio tão simples quanto necessário para a higiene e saúde humana, como a escova de dentes, está longe do cotidiano de mais pessoas do que se imagina, descobre-se que a Câmara dos Deputados pagou horas extras em janeiro, quando a Casa estava em recesso e, portanto, sem qualquer atividade administrativa ou parlamentar. Foi desembolsada, com dinheiro do contribuinte, a bagatela de R$ 6,2 milhões. Além disso, a Câmara concedeu aumento de 111% no benefício, o que elevou o teto de R$ 1.250 para R$ 2.640.

Só a título de curiosidade, em fevereiro os digníssimos senadores da República não votaram um projeto sequer, mas receberam, de forma integral, os salários, de R$ 16,5 mil, e a verba indenizatória, de R$ 15 mil. Ainda estenderam o feriadão de Carnaval até o começo 3 de março. É bom recordar que a esmagadora maioria dos trabalhadores voltou à lida na Quarta-Feira de Cinzas, ao meio-dia.

Pois é. Enquanto isso, o Ministério da Saúde divulga que 58% da população não tem acesso adequado a escovas de dente. O número inclui pessoas que consumiram o produto apenas algumas vezes, ou de forma inadequada, ou seja, quando o uso da mesma escova é feito por período muito prolongado. Grande parte dos casos ocorre devido à carência de informação sobre a importância do hábito de se escovar os dentes após as refeições.

Sei não. Às vezes penso que Brasília poderia sumir do mapa. Não faria falta nenhuma... . É a opulência bandida em contraste com a miséria escandalosa.