O fácil acesso à informação deveria significar emancipação da espécie humana. Quando se estuda um pouco sobre as características do jornalismo, entretanto, logo vem à tona conclusão contrária. O problema está na forma de transmissão do conhecimento. Uma das referências obrigatórias para melhor compreensão do fenômeno é a monumental Teoria Crítica da Sociedade, que abriga vários teóricos da comunicação, especialistas por excelência em detectar a existência de um sistema de produção, reprodução e difusão de bens culturais. Eu gosto muito dos alemães Theodor Adorno e Max Horcheimer, pais da fantástica Dialética do Esclarecimento - da qual emergiu a Teoria Crítica da Sociedade -, que cunharam nos anos 1940 um famoso termo que, até hoje, define muito bem o dilema. A indústria cultural inicialmente seria alimentada por megainteresses econômicos que, em vez de nutrir homens e mulheres do saber, elevando o senso crítico e o entendimento da realidade que os cerca, contribuiria para o entorpecimento, a letargia. Tal mecanismo baseia-se sobretudo na clássica ideia de repetição, base do Positivismo, que considera como verdade apenas o objeto passível de comprovação cientifica. As populações, então, absortas em notícias e entretenimentos, reportados a partir de técnicas silenciosas que apresentam a mesma coisa como se diferentes fossem e criam vários paradigmas no inconsciente coletivo - os estereótipos, que, entre outras coisas, reforçam a tendência ao racismo -, transformam-se em massas de manobra para a manutenção do status quo, ou seja, o que é sempre será, sem chances de mudança.
A introdução é somente para comentar reportagem recente da Folha de S. Paulo, que traz o drama das TVs abertas nos Estados Unidos. Afetadas pela crise econômica mundial e diante da necessidade de modificar sua grade de programação, para conter despesas, até para concorrer com os canais fechados, ícones da mídia eletrônica - os conglomerados (muitos ramos de mídia) CBS, ABC e NBC e Fox - falam abertamente em investir em inciativas mais baratas, alternativas para séries de muito sucesso que, todavia, não conseguem alavancar suficientemente a audiência, a ponto de justificar, por exemplo, a disponibilização de um piloto, com dois episódios, da aclamada "Lost", ao custo da bagatela de U$ 10 milhões. Meu caro internauta, isso significa aumento relevante dos monstrengos e emburrecedores realitys shows, de programas de entrevistas e de telejornais. Preocupa que a aplicação de recursos em jornalismo tenha a conotação de barata. Certamente, o telescpectador será presenteado (?) com material de qualidade duvidosa (leia-se notícias). Daí a reflexão sobre indústria cultural.
Trata-se de uma tendência mundial, que também respinga no Brasil. Aqui, a urgência de uma reformulação estrutural nos conglomerados de mídia vem de longa data. No caso da Rede Globo, durante muitos anos o carro-chefe eram as novelas. Hoje em franca decadência, as novelas globais arrastam-se na penúria, tanto de talento como de criatividade. A Record e o SBT bem que arriscaram entrar no ramo. Na minha opinião, sem sucesso. A contemporaneidade, principalmente com o advento da internet, requer novas fórmulas. E, ao que parece, não mudará muito para aficionados da arte e da boa informação. Infelizmente, a situação deve piorar.
Mesmo sem crise, a grande mídia sempre preferiu produções mais em conta, mais populares e com resultados imediatos. No jornalismo, a sacralização do bem e do mal, como se entre eles nada houvesse, elimina a oportunidade do debate, enquanto que a concentração da cobertura nos continentes europeu e americano (agora, a Ásia, por força das circunstâncias e da ascendência da China como potência econômica) refaz midiaticamente a geografia. A África só oferece sofrimento e o Oriente Médio apenas guerras.