Num mundo tão carente de verdadeiros líderes, torna-se obrigação lembrar, num misto de saudade e reverência, os que fizeram a diferença quando na Terra estiveram. Um deles é o Papa João Paulo II, que há quatro anos, completados no dia 2 de abril, deixava um vácuo enorme no rol das grandes personalidades. Muitos o criticam pelo conservadorismo que representava. Em parte seus desafetos têm razão, se a trajetória de Karol Wojtyla for observada apenas no âmbito da moral e à luz do contexto da época, sem a singularidade da fé. Ao contrário do que queria o episcopado liberal, de França e da Alemanha principalmente, a quem os estudiosos creditam uma influência decisiva no conclave que elegeu o primeiro pontífice polonês da história, João Paulo não se curvou à suposta urgência de modernização da Igreja. Fez ouvidos moucos a apelos em prol de maior flexibilidade sobre questões delicadas como aborto, eutanásia, divórcio, sexo antes do casamento, união homossexual, celibato dos padres... . O desespero vinha de países desenvolvidos onde não havia grandes problemas financeiros, a população conseguira um padrão de vida estável e o acesso ao conhecimento era facilitado. Resultado: a fé entrara em franca decadência. Ficara difícil falar do sobrenatural - quanto mais da doutrina religiosa que o acompanha - com pessoas assim, que se viam donas da situação e de si mesmas. A ponto de a constituição da então nascente União Europeia sequer mencionar o nome de Deus. Nas pouquíssimas vezes em que João Paulo saiu do sério em público foi justamente devido ao imbróglio. Não se cansava de bradar - e alertar - que o velho continente lamentavelmente esquecera suas raízes cristãs. Raízes, aliás, que passaram a valer ouro, sobretudo depois do estouro da crise econômica planetária, na segunda metade de 2008, que encerrou o aclamado círculo de prosperidade, baseado no lucro desmedido oriundo de papéis cotados nas bolsas de valores.
Mas analisar João Paulo II somente desse ponto de vista é reduzi-lo a uma parte do todo. O homem foi maior do que as ideias. A compreensão do fenômeno talvez clareie outra característica do Papa Peregrino, que merece atenção redobrada. Ele não parecia ser um mero seguidor de normas. Tanto que, em suas viagens apostólicas ao redor do mundo, não demonstrava o menor constrangimento em quebrar protocolos, furar bloqueios de segurança e até mesmo cantar e dar gostosas gargalhadas - algo impensável diante de uma sisudez de que, às vezes, a Igreja se reveste. João Paulo impressionava porque suas atitudes não se prendiam a nenhum automatismo. Carregava consigo a naturalidade dos que acreditam naquilo que pregam. Daí o pensamento difundido ganhar corpo e alma, transcender o campo da teoria para adquirir existência própria e se entranhar no inconsciente coletivo. A mágica acontece e o "não" dito com doçura pode perfeitamente tomar o lugar do "sim". João Paulo conseguia realizar a façanha. Madre Teresa de Calcutá costumava sublinhar que um testemunho suplanta mil palavras. João Paulo encarnava tal constatação como ninguém. Era o que dizia. Era o que fazia. A emoção que pulsava em seu peito invadia os lugares em que chegava. Voz grave e firme, comunicava-se com os que se aglomeravam para ouvi-lo na língua pátria. O gesto representava a vontade do pastor de sentir e, claro, entender a vida do rebanho que lhe fora confiado.
João Paulo foi um cidadão do mundo, quebrou paradigmas e inspirou respeito até nos que dele discordavam. Deu um show de diplomacia e amor pela humanidade. O conservadorismo de que o acusam perde sentido à medida que o homem emerge e se assume como produto do seu tempo. Morreu com praticamente 85 anos, 27 dos quais na cátedra de Pedro, um dos pontificados mais longos da história. Próximo de sua partida, um Domingo de Páscoa, já bastante alquebrado pela enfermidade que o acometia, não se expressou oralmente, não pôde, não conseguiu. Não desistiu, entretanto. Não era de seu feitio, afinal, fugir da luta. De uma das sacadas do Vaticano ficou em silêncio, um silêncio que até hoje ecoa forte no coração da Igreja. João Paulo proferiu ali o discurso mais contundente de sua vida. Foto wikipedia
Depois que o presidente Barack Obama derreteu-se em elogios ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, num momento de descontração durante a reunião do G20(que reúne as maiores potências do planeta), em Londres, Inglaterra - "esse é o cara", disse Obama para Lula, diante dos holofotes da mídia mundial -, lembrei-me de comentários feitos pelo vice-presidente José Alencar, no programa Roda Viva, veiculado na TV Cultura, semana passada.
Não encontrei nenhuma reportagem sobre os 45 anos do golpe militar de 1964, completados exatamente hoje, 31 de março de 2009. O descaso para com o passado é algo perigoso, sobretudo quando o objeto do esquecimento representa um golpe mortal que a democracia brasileira recebera. O que mais espanta, entretanto, mais até que o silêncio da imprensa - que, a rigor, deveria contribuir para que tragédias como a de 64 jamais voltem a ocorrer, impregnando o insconsciente coletivo com os fatos daquela época - é a letargia de escolas e faculdades sobre o assunto. Ao que parece, o ensino continua a dormir em "berço esplêndido", cultivado durante as duas décadas de ditadura com o esfacelamento dos grêmios estudantis e da grade curricular.
Nesta terça-feira, o Brasil recorda 45 anos desde que os militares tomaram o poder no país e implantaram um regime ditatorial que durou duas décadas inteiras. Período em que a nação beijou a lona, pessoas de bem tiveram que optar entre ir para o exílio ou ficar à mercê da baioneta.
Só para variar, mais um escândalo joga lama no Congresso Nacional. A instituição, que abriga a Câmara dos Deputados e o Senado, é acusada de permitir mordomia aérea para os parlamentares (514 deputados e 81 senadores). Há casos, segundo noticiou a Folha On-Line, em que o político tem direito a uma passagem de avião por dia - isso mesmo - para se deslocar de Brasília até o Estado de origem. Até deputado e senador do Distrito Federal, ou seja, que possui base eleitoral na capital do país, é agraciado com a benesse.
A que ponto chegou o futebol brasileiro. A Seleção Canarinho não jogou nada contra o Equador, ontem à tarde, pelas eliminatórias sul-americanas da Copa do Mundo de 2010. Como bem disse o jornalista esportivo Milton Neves, da Rede Bandeirantes, o Brasil deveria ter sido goleado. Só não o foi por causa do goleirão Júlio César, que salvou o time do técnico Dunga do tsunami de tentativas equatorianas.