sexta-feira, 3 de abril de 2009

Era o que dizia. Era o que fazia.

Num mundo tão carente de verdadeiros líderes, torna-se obrigação lembrar, num misto de saudade e reverência, os que fizeram a diferença quando na Terra estiveram. Um deles é o Papa João Paulo II, que há quatro anos, completados no dia 2 de abril, deixava um vácuo enorme no rol das grandes personalidades. Muitos o criticam pelo conservadorismo que representava. Em parte seus desafetos têm razão, se a trajetória de Karol Wojtyla for observada apenas no âmbito da moral e à luz do contexto da época, sem a singularidade da fé. Ao contrário do que queria o episcopado liberal, de França e da Alemanha principalmente, a quem os estudiosos creditam uma influência decisiva no conclave que elegeu o primeiro pontífice polonês da história, João Paulo não se curvou à suposta urgência de modernização da Igreja. Fez ouvidos moucos a apelos em prol de maior flexibilidade sobre questões delicadas como aborto, eutanásia, divórcio, sexo antes do casamento, união homossexual, celibato dos padres... . O desespero vinha de países desenvolvidos onde não havia grandes problemas financeiros, a população conseguira um padrão de vida estável e o acesso ao conhecimento era facilitado. Resultado: a fé entrara em franca decadência. Ficara difícil falar do sobrenatural - quanto mais da doutrina religiosa que o acompanha - com pessoas assim, que se viam donas da situação e de si mesmas. A ponto de a constituição da então nascente União Europeia sequer mencionar o nome de Deus. Nas pouquíssimas vezes em que João Paulo saiu do sério em público foi justamente devido ao imbróglio. Não se cansava de bradar - e alertar - que o velho continente lamentavelmente esquecera suas raízes cristãs. Raízes, aliás, que passaram a valer ouro, sobretudo depois do estouro da crise econômica planetária, na segunda metade de 2008, que encerrou o aclamado círculo de prosperidade, baseado no lucro desmedido oriundo de papéis cotados nas bolsas de valores.

Mas analisar João Paulo II somente desse ponto de vista é reduzi-lo a uma parte do todo. O homem foi maior do que as ideias. A compreensão do fenômeno talvez clareie outra característica do Papa Peregrino, que merece atenção redobrada. Ele não parecia ser um mero seguidor de normas. Tanto que, em suas viagens apostólicas ao redor do mundo, não demonstrava o menor constrangimento em quebrar protocolos, furar bloqueios de segurança e até mesmo cantar e dar gostosas gargalhadas - algo impensável diante de uma sisudez de que, às vezes, a Igreja se reveste. João Paulo impressionava porque suas atitudes não se prendiam a nenhum automatismo. Carregava consigo a naturalidade dos que acreditam naquilo que pregam. Daí o pensamento difundido ganhar corpo e alma, transcender o campo da teoria para adquirir existência própria e se entranhar no inconsciente coletivo. A mágica acontece e o "não" dito com doçura pode perfeitamente tomar o lugar do "sim". João Paulo conseguia realizar a façanha. Madre Teresa de Calcutá costumava sublinhar que um testemunho suplanta mil palavras. João Paulo encarnava tal constatação como ninguém. Era o que dizia. Era o que fazia. A emoção que pulsava em seu peito invadia os lugares em que chegava. Voz grave e firme, comunicava-se com os que se aglomeravam para ouvi-lo na língua pátria. O gesto representava a vontade do pastor de sentir e, claro, entender a vida do rebanho que lhe fora confiado.

João Paulo foi um cidadão do mundo, quebrou paradigmas e inspirou respeito até nos que dele discordavam. Deu um show de diplomacia e amor pela humanidade. O conservadorismo de que o acusam perde sentido à medida que o homem emerge e se assume como produto do seu tempo. Morreu com praticamente 85 anos, 27 dos quais na cátedra de Pedro, um dos pontificados mais longos da história. Próximo de sua partida, um Domingo de Páscoa, já bastante alquebrado pela enfermidade que o acometia, não se expressou oralmente, não pôde, não conseguiu. Não desistiu, entretanto. Não era de seu feitio, afinal, fugir da luta. De uma das sacadas do Vaticano ficou em silêncio, um silêncio que até hoje ecoa forte no coração da Igreja. João Paulo proferiu ali o discurso mais contundente de sua vida. Foto wikipedia

Pelé perde a majestade para Lula

Depois que o presidente Barack Obama derreteu-se em elogios ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, num momento de descontração durante a reunião do G20(que reúne as maiores potências do planeta), em Londres, Inglaterra - "esse é o cara", disse Obama para Lula, diante dos holofotes da mídia mundial -, lembrei-me de comentários feitos pelo vice-presidente José Alencar, no programa Roda Viva, veiculado na TV Cultura, semana passada.

Alencar afirmou que Pelé perdeu a majestade para Lula. Segundo ele, no exterior, onde antes o ex-craque era lembrado como sinônimo do Brasil, agora o nome em voga é do petista. Alencar não chegou a defender a possibilidade de um eventual terceiro mandato, mas lembrou dados que apontam Lula o preferido dos brasileiros em todas as pesquisas de opinião até agora realizadas.

De fato, no país não há ninguém entre os prováveis candidatos à sucessão presidencial que faça sombra a Lula. São apenas zumbis, se comparados ao petista. Foto Trinuna da Região

quinta-feira, 2 de abril de 2009

STF e Imprensa: dois pontos para reflexão

Durante o início do julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade que pede a revogação de 77 dispositivos da Lei de Imprensa, ontem, no Supremo Tribunal Federal, em Brasília, chamou-me atenção dois momentos do voto do ministro-relator Carlos Ayres Brito.

O primeiro deles foi quando o magistrado defendeu ardorosamente o fim de todo o arcabouço legal, datado de 1967, visto que a Constituição Federal já contém artigos que versam sobre o assunto e que encerram em si mesmos qualquer tentativa de desdobrá-los em nova lei. Noutras palavras, Ayres Brito não só mostrou-se favorável ao fim de toda a Lei de Imprensa, como também da necessidade de se criar uma nova Lei. No que foi prontamente afrontado pelo presidente do STF, ministro Gilmar Mendes, para quem a sociedade não se resume à imprensa e os direitos individuais precisam, sim, ser resguardados em lei que detalhe o disposto na Carta Magna.

O segundo trecho do extenso voto de Ayres Brito, que ganhou destaque aos meus olhos, diz respeito à definição de imprensa. O ministro não considerou a internet como tal. O que, salvo melhor juízo, pode sinalizar para onde vai seu pensamento acerca do recurso extraordinário, interposto pelo Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão no Estado de São Paulo e pelo Ministério Público Federal, e que solicita o fim da obrigatoridade do diploma universitário para o exercício do jornalismo. O raciocínio é simples. Os defensores da medida costumam argumentar que o mundo virtual, uma realidade que faz com que muitos conceitos do jornalismo sejam repensados, não exige que seu usuário seja graduado para postar ali notícias. Trata-se de um espaço livre. Ayres Brito demonstrou muita lucidez ao separar bem as coisas e, nas entrelinhas, valorizar o trabalho exercido por alguém que, durante anos, cursou uma universidade. Ora, se a internet é aberta a todos, o público tem direito a meios que lhes ofereça conteúdo confiável, e profissional, o suficiente para suscitar nele condições de estabelecer um juízo lógico em torno do contexto que o cerca. Refiro-me à qualidade do conteúdo mediatizado.

O julgamento da ADI será retomado no dia 22. Até lá, entretanto, tudo que se disser não passará de meras conjecturas. Aguardemos, então, o desfecho da matéria.

terça-feira, 31 de março de 2009

Uma pátria sem memória

Não encontrei nenhuma reportagem sobre os 45 anos do golpe militar de 1964, completados exatamente hoje, 31 de março de 2009. O descaso para com o passado é algo perigoso, sobretudo quando o objeto do esquecimento representa um golpe mortal que a democracia brasileira recebera. O que mais espanta, entretanto, mais até que o silêncio da imprensa - que, a rigor, deveria contribuir para que tragédias como a de 64 jamais voltem a ocorrer, impregnando o insconsciente coletivo com os fatos daquela época - é a letargia de escolas e faculdades sobre o assunto. Ao que parece, o ensino continua a dormir em "berço esplêndido", cultivado durante as duas décadas de ditadura com o esfacelamento dos grêmios estudantis e da grade curricular.

Não me canso de recordar a atitude do general Dwight Eisenhower, assim que se deparou com as vítimas dos campos de concentração, após o fim da 2ª Guerra Mundial (1939-1945). Ele ordenou que fosse tirado o maior número possível de fotos, além de convocar os alemães das cidades vizinhas até os locais onde milhões de judeus foram mortos em câmaras de gás para, inclusive, ajudarem a enterrar os corpos. "Que se tenha o máximo de documentação - façam filmes, gravem testemunhos - porque, em algum momento ao longo da história, algum idiota se vai erguer e dirá que isto nunca aconteceu", alertou Eisenhower. Hoje, no Reino Unido, não é permitido usar o termo holocausto, em respeito a muçulmanos, que garantem que o genocídio nunca existiu. "Tudo o que é necessário para o triunfo do mal é que os homens de bem nada façam", atestou o filósofo e político anglo-irlandês Edmund Burke.

Não faz muito, dois grandes veículos de comunicação do país - revista Veja e Folha de S. Paulo - veicularam matérias a respeito dos Anos de Chumbo. Veja ridicularizou a intenção do governo federal de abrir arquivos da ditadura que, ao contrário do que se pensava, podem ainda existir, enquanto a Folha de S. Paulo chamou o período de "ditabranda", numa alusão à forma leve em que se teria desenvolvido o mando militar no Brasil. Tanto numa como noutra, porém, vislumbra-se o temor de uma necessária revisão da Lei da Anistia, de autoria dos militares e que, até hoje, carrega o fardo de uma interpretação dúbia. Não só as pessoas condenadas por crimes políticos ficaram livres da culpa, mas também os representantes do Estado que violaram os direitos humanos.

Daqui a pouco há de surgir alguém que vocifere ser mentira o horror ocorrido nos bastidores do governo da baioneta. Foto bpblog

segunda-feira, 30 de março de 2009

45 anos que não podem ser esquecidos jamais

Nesta terça-feira, o Brasil recorda 45 anos desde que os militares tomaram o poder no país e implantaram um regime ditatorial que durou duas décadas inteiras. Período em que a nação beijou a lona, pessoas de bem tiveram que optar entre ir para o exílio ou ficar à mercê da baioneta.

Imprescindível, entretanto, é analisar um movimento tão rasteiro quanto o governdo dos generais que, nos bastidores, ganha fôlego. Na contramão da história, forças retrógradas ainda tentam impedir que a nação encare o passado de frente e puna os reponsáveis pelas atrocidades cometidas de 1964 a 1984. Grandes e influentes veículos de comunicação - Veja e Folha de S. Paulo, por exemplo - são usados para desmerecer o que, na América do Sul mesmo, já encontra espaço no campo real dos fatos. A Argentina tornou sem efeito a Justiça Penal Militar, que amparava os assassinos de farda atuantes de 1976 a 1983. Agora, eles serão julgados pela justiça civil comum. Enquanto que, no Uruguai, os parlamentares acabaram com a Lei da Caducidade, que anistiava militares e policiais acusados de violação aos direitos humanos.

A revista Veja ridicularizou a tentativa dos ministros da Justiça, Tarso Genro, e dos Direitos Humanos, Paulo de Tarso Vanuci, de abrir arquivos secretos da ditadura que oficialmente teriam sido queimados. E a Folha de S. Paulo veiculou polêmico editorial em que classifica o regime da baioneta brasileiro de "ditabranda", se comparado com outros semelhantes. Na esteira da discussão certamente está a Lei da Anistia que, diga-se de passagem, até hoje, apesar de algumas tentativas tímidas de dar continuidade a ela, ainda carrega sobre si um criminoso sentido dúbio: assim como os acusados de crimes políticos, também os representantes do Estado, autores de qualquer violência política, estavam automaticamente perdoados. O desejo é evitar uma suposta "caça às bruxas".

Enquanto o Brasil resistir à urgência de passar a limpo esse terrível episódio de sua história, seus mortos não descansarão em paz e tampouco as gerações futuras poderão orgulhar-se de uma pátria que sequer teve a dignidade, e coragem, de enfrentar os fantasmas de farda. Tudo porque institucionalizou a impunidade.

Que esse 31 de março sirva para todos colocarem a mão na consciência. Que as escolas e as universidades jamais se esqueçam de ensinar aos jovens que a democracia usurpada transforma o povo em pura massa de manobra. Daí a necessidade de lembrar, lembrar e lembrar de tudo que aconteceu. Das torturas covardes ocorridas nos porões. Só assim será possível criar neles um sentimento crítico e de alerta, antído eficaz para que nunca mais os generais saiam dos quartéis e sintam que podem gerir com competência a coisa pública.

Não que a democracia surgida após a ditadura tenha honrado a luta dos que resistiram bravamente à linha-dura do quepe. Os escândalos de todos os tipos - econômicos, financeiros e políticos - estão aí para envergonhar os cidadãos dígnos. Mas ainda assim, a liberdade democrática é melhor do que a opressão. Cuidado com o revisionismo histórico travestido da intenção de sepultar o passado criminoso. Foto aldoadv

Congresso enlameado

Só para variar, mais um escândalo joga lama no Congresso Nacional. A instituição, que abriga a Câmara dos Deputados e o Senado, é acusada de permitir mordomia aérea para os parlamentares (514 deputados e 81 senadores). Há casos, segundo noticiou a Folha On-Line, em que o político tem direito a uma passagem de avião por dia - isso mesmo - para se deslocar de Brasília até o Estado de origem. Até deputado e senador do Distrito Federal, ou seja, que possui base eleitoral na capital do país, é agraciado com a benesse.

Não faz muito, descobriu-se que, no Senado, pagam-se horas extras em mês de férias e ajuda de custo em dezembro e fevereiro para servidores da Casa. O rombo, claro, é dos cofres públicos que, a propósito, ficam recheados com dinheiro suado do contribuinte, trabalhador honesto que já na aguenta mais tanta safadeza. Apenas a dita "ajuda de custo" custou ao tesouro mais de R$ 83 milhões.

Peru é o próximo, graças a Deus!

A que ponto chegou o futebol brasileiro. A Seleção Canarinho não jogou nada contra o Equador, ontem à tarde, pelas eliminatórias sul-americanas da Copa do Mundo de 2010. Como bem disse o jornalista esportivo Milton Neves, da Rede Bandeirantes, o Brasil deveria ter sido goleado. Só não o foi por causa do goleirão Júlio César, que salvou o time do técnico Dunga do tsunami de tentativas equatorianas.

Aliás, quem é que entende a permanência dele na Seleção Brasileira até hoje? E não me venha colocar a culpa na altitude de quase 3 mil metros em Quito. Por favor. Mais do que as dificuldades normais que o fenômeno acarreta, a falta de vontade do escrete nacional deve ser eleita a grande vilã do fiasco de 1 a 1. O destaque ficou por conta de Ronaldinho Gaúcho. A única coisa boa que realizou na partida foi quando saiu para a entrada de Júlio Batista, autor do gol amarelo. Façamos coro a Milton Neves, então: Dunga, preste uma homenagem a Ronaldinho Gaúcho. Não o convoque mais, não, por favor.

Bem, já é latente o alívio da torcida. A euforia advém do próximo adversário do Brasil, o fraquíssimo Peru, que faz parte daquele rol de seleções encaradas como a alegria dos que as enfrentam, dado às escassas qualidades de seus atletas, na próxima quarta-feira. A Seleção Brasileira está num vexatório 4º lugar, atrás de Chile (3º), Argentina (2º) e Paraguai (1º).

Daí que um jogador gordo e sem a mínima condição de representar um país, apesar de levantar o ânimo do Corinthians, seu atual clube, como Ronaldo Fenômeno, ser cotado para a Seleção Brasileira. Tenha dó. Foto Galabay/Reuter