domingo, 3 de maio de 2009

Cruzeiro bicampeão mineiro

O Cruzeiro é bicampeão mineiro invicto. A Raposa atinge a façanha pela 10ª vez na história, num total de 35 confrontos. Mas o resultado que oficializou o título 2009 para a Toca foi um empate em 1 a 1 com o Atlético, agora à tarde, no Mineirão. Bem diferente do primeiro jogo da decisão, no domingo passado, dessa vez os celestes enfrentaram um Galo competitivo, longe daquele time apático, dono de um futebol ridículo apresentado no segundo tempo da partida de ida.

Pode-se dizer até que o alvinegro recuperou a dignidade. Tanto que jogou melhor a etapa inicial hoje e abriu o placar. O Cruzeiro igualou em cobrança de pênalti minutos depois, mas perdeu-se em campo, pressionado pelo arquirrival, que manteve o ritmo até o intervalo. No segundo tempo, o Cruzeiro melhorou, sobretudo após a expulsão de Carlos Alberto. Mesmo com um atleta a menos, o Atlético não se entregou. Continuou lutando até o apito final. O Cruzeiro mereceu o título pelo que mostrou no certame inteiro e pela larga vantagem conseguida, depois de golear o adversário por 5 a 0. Podia perder por até quatro gols de diferença que, ainda assim, levantaria a taça.

Vale lembrar que o ténico alvinegro, Emerson Leão, mais uma vez foi vítima de um temperamento explosivo. Ofendeu o árbitro com palavreado de baixo calão no começo do intervalo do primeiro para o segundo tempo. Ele não se conformou com a atitude de Leonardo Gaciba da Silva, que anulou gol do atacante Diego Tardelli, aos 43 minutos da etapa inicial, sob alegação de impedimento. Comentaristas deram razão ao juiz, que não perdoou e acabou expulsando Leão.

Também o Cruzeiro teve seu momento triste. Wellington Paulista provou que não está pronto para ser titular. No final da partida, com a garantia do campeonato para a Raposa, o jogador partiu para cima de Welton Felipe, que agrediu o cruzeirense Kléber violentamente e já tinha recebido cartão vermelho. Confusão desnecessária. Já pensou um comportamento desse numa final de Libertadores?

De qualquer maneira fica o grito de alegria: Zeiroooooooooooooooooooooooooooo! Foto manuel Pinheiro/EM/D.A Press

Lei de Imprensa cai em meio à crise econômica e risco de pandemia

A revogação da Lei de Imprensa não causou o impacto que deveria na sociedade. Creio que o motivo seja uma mistura insólita que deixou os brasileiros em estado de choque: crise econômica mundial e possibilidade de pandemia de gripe suína, salpicadas com sucessivos escândalos no Congresso Nacional e perda de compostura de dois ministros do Supremo Tribunal Federal. O resultado é que a decisão do STF de jogar a última pá de terra no combalido arcabouço jurídico quase passou em brancas nuvens, muito aquém da importância que representa para o bom desenvolvimento de (in)formar a opinião pública no país.

De qualquer forma, vale comemorar, e muito, a extinção daquele monstrengo criado no calor dos anos negros da ditadura militar, pouco mais de um ano antes da promulgação do Ato Institucional nº 5, que praticamente acabou com as liberdades individuais no Brasil. Dos 11 ministros da Alta Corte, sete votaram pela revogação total, três pela revogação parcial e um pela manutenção da norma e criação de novas regras. A maioria deles, portanto, jogou para a Constituição Federal e os códigos Penal e Civil a responsabilidade de coibir eventuais abusos da imprensa, sobretudo a partir do direito de resposta.

O presidente do STF, ministro Gilmar Mendes, ponderou, entretanto, que a revogação total da Lei de Imprensa não impede que sejam erigidas normas específicas para o setor. A expectativa doravante passa para outro julgamento do STF, que decidirá sobre a obrigatoriedade do diploma universitário para o exercício do jornalismo.

Dramaticidade da educação no relato de uma professora

Seguem abaixo trechos da carta que a professoraÁurea Regina Damasceno enviou à Secretária de Educação de Belo Horizonte. Eu os transcrevo do blog do sociólogo Rudá Ricci, para quem "a carta é um depoimento dramático e cru sobre o cotidiano das salas de aula desde sempre desconsiderado pelos gestores da educação de nosso país. Ao contrário, os gestores caminham, com raras exceções, na contramão, confrontando a realidade e penalizando professores. A última invenção, totalmente sem sentido, é a introdução da premiação (ou certificação) para professores que possuem turmas com bom desempenho escolar. Somente quem desconhece a realidade educacional do país poderia elaborar algo tão sem sentido."

“Hoje, dia 19 de março de 2009, vou mais um dia para a escola, desanimada e certa de que as aulas que preparei para os alunos do 3º ciclo, 1º turno, não serão dadas. Mas busco entusiasmo não sei onde, entro para a sala de aula (sala 10, 6ª série) e inicio repetindo o que tenho falado com os alunos desde o primeiro dia de aula: coloquem o caderno, a agenda, o lápis, caneta, borracha, régua, tesoura sobre a mesa e guardem a mochila debaixo da carteira ou dependurada no encosto da cadeira (muitos se deitam, durante a aula, na mochila para dormir ou se escondem atrás dela para dar gritos ensurdecedores sem motivo algum ou para atirar bolinhas de papel enfiadas nocorpo das canetas esferográficas).”

“Essa atividade demanda mais ou menos uns 20 min, pois metade da sala não ouve, ou finge que não ouve, continua a correr pela sala, está virada para trás conversando, está subindo nas bancadas sobre as janelas e de lá pulando de cadeira em cadeira e outros tantos estão a olhar no vazio, sem nada fazer.”

“Pergunto por que estão sem a agenda e sem as folhas, várias respostas: esqueci, meu irmão rasgou, fiz bolinha de papel, fulano (referindo-se a um colega de sala, ou mesmo de outras salas que durante os intervalos invadem como loucos as salas vizinhas, batem, jogam mochilas pelas janelas, rasgam material, andam sobre as carteiras) pegou rasgou ou fez bolinha de papel, rasguei porque achei que não iria precisar. (ah, seria tão fácil se você os colocasse então em duplas para fazerem a atividade, penso eu). Ah! sim, seria e a responsabilidade e o compromisso ficariam para ser construídos não se sabe quando. “

“Agora aula na sala 09, também 6ª série. Quando chego à porta da sala tenho vontade de sumir, há pelo menos uns dez alunos de pé sobre a bancada debaixo da janela. (...) A garota - infelizmente ainda não sei todos os nomes - que se assenta na última carteira da 2ª fila, perto da janela, pula da bancada para o tampo de uma carteira e depois para o tampo da sua, desce para a cadeira, pula no chão e corre, gritando pela sala atrás de um garoto. Passam na minha frente como se lá eu não estivesse e voltam. Paro na frente de todos e fico olhando, tenho a impressão de que estou numa rebelião. Penso: o que fazer?”

“Volto, não chego a parar um minuto na frente da sala e caio. Caio sem saber como nem porque. Ouço apenas um silêncio e: - a professora caiu!!!! Levanto-me de um só pulo, com algumas dores. Continuo o sermão dizendo que caí certamente porque perdi o equilíbrio em função do comportamento deles."

“Logo que iniciei as aulas perguntei à coordenadora qual era o diagnóstico desses alunos, ela me disse que não sabia e que iria procurar saber. Já são alunos da escola, pelo menos desde o ano passado, e estão na 8ª série. Sempre que lhes peço algo, a turma responde: “ô professora eles num faz nada não, tem poblema de cabeça”.”

A professora Áurea é doutora, com trinta anos de experiência na educação básica. Foi dirigente do Sindute. Retrata o cotidiano escolar que gera a famosa Síndrome de Burnout, o esgotamento nervoso que tira de circulação tantos professores ao longo deste país. Não há paralelo com nenhuma outra profissão. Nem mesmo com o cotidiano de professores universitários, que vivem um outro mundo.Não sei o que comentar. A carta fala por si."

É, meu caro Rudá, nem eu, nem eu...