quinta-feira, 2 de julho de 2009

Quem contrataria Gilmar Mendes para dirigir um jornal?

Que o ministro Gilmar Mendes, tragicamente elevado à condição do Supremo Tribunal Federal, foi irônico e de um pedantismo sem tamanho quando exerceu a função de relator do processo que extinguia a exigência de diploma universitário para jornalista, ninguém duvida. A não ser, claro, veículos de comunicação, como a revista "Veja", famosos pela linha ultradireitista que impõem a seus leitores e que, num editorial fantasmagórico, enaltece a decisão do STF, em especial as palavras de seu presidente. Mas mesmo aí, há que se respeitar a linha ideológica de rádios, TVs e jornais, porque imprensa está longe de viver à mercê de supostos dons que, sinceramente, já não cabem na contemporaneidade se não tiverem o amparo sólido do conhecimento científico; para se enquadrar num ofício sério, comprometido com o sacro dever de reportar à sociedade versões de fatos merecidamente transformados em notícia. Não existe imparcialidade na imprensa. Há esforço para se alcançar a isenção, a partir da multiplicidade de fontes. Daí que se torna louvável, e necessário, o posicionamento, o direcionamento para determinado ponto.

Mas voltemos ao centro da questão. O jornalista Alberto Dines escreveu artigo esclarecedor sobre o imbróglio, que vale a penas ser digerido, degustado:

Quem contrataria Gilmar Mendes para dirigir um jornal?

* Alberto Dines

Mesmo os inimigos do ministro-presidente do STF Gilmar Mendes são obrigados a reconhecer o seu vasto saber jurídico, sua cultura, sua capacidade de expressar-se com tanta clareza e elegância como também seu conhecimento do idioma alemão.

Diante da sua obsessão em demonstrar que o jornalismo não é uma profissão e, portanto, não precisa ser regulamentado, este Observador sente a necessidade de repetir, ampliar e reformular a pergunta dirigida ao professor e ex-ombudsman da Folha e do iG Mario Vitor Santos na edição da semana passada (23/6) do Observatório da Imprensa na TV:

– Você contrataria o presidente do STF para dirigir o seu jornal?

Sua Excelência certamente perdoará a provocação cuja única finalidade é oxigenar e animar um debate que ao longo dos últimos 24 anos serviu para vocalizar apenas um lado da questão – o dos empresários.

A querela a respeito do diploma, ou melhor, do fim da obrigatoriedade do diploma para o exercício do jornalismo, é secundária. Outra deve antecedê-la: jornalismo é profissão, ocupação, ofício, ferramenta de trabalho? Ou, além disso, também é missão, tal como a de um magistrado, treinado para destrinchar a dialética dos códigos, administrar a justiça e ser justo?

Ensinar e aprender - Este Observador jamais contrataria o ministro Gilmar Mendes para dirigir qualquer veículo jornalístico apesar do seu imbatível curriculum jurídico. Mas entregaria o seu hipotético jornal a um profissional diplomado em jornalismo, de preferência com uma pós-graduação profissionalizante, pelo menos 25 anos de experiência em redações e, principalmente, capacitado para assumir o papel de mediador, questionador e agente das transformações.

No seu arrazoado contra o diploma e contra a especificidade da profissão de jornalista, o ministro Gilmar Mendes esquece o seu notório domínio do idioma alemão. Não lembrou que Zeitung, jornal, deriva da raiz Zeit, tempo. Jornalismo em português ou Journalisme em francês (de Jour, dia, jornada) são atividades cruciais numa sociedade porque lidam com a passagem do Tempo.

Uma sociedade desatenta para as inevitáveis mudanças está perdida, torna-se apática ou desarvorada.

Jornalistas marcam o tempo, verdadeiros ritmistas, mas ao contrário dos relojoeiros lidam com um tempo que não jorra contínuo. O tempo jornalístico é periódico, marcado pelas sucessivas edições, condicionado para a complexa tarefa de sintetizar o acontecido no período (daí periodismo em espanhol).

Passar ao leitor a sensação de que é testemunha e participante de um amplo processo exige conhecimentos teóricos, técnicos e também uma disposição instintiva para pressentir o que é novo e o que importa. Escritores raramente retomam seus textos depois de impressos. O ponto final é ponto final mesmo.

Jornalistas são treinados para a infindável tarefa de reescrever-se continuamente. Este treinamento começa nos bancos das escolas de jornalismo. Nas redações não há tempo para filosofar. Nem há tempo para olhar-se no espelho e reclamar. O mundo para os jornalistas é verdadeiramente redondo, rotativo, rotativa.

É a tal unendliche Aufgabe (tarefa infindável), ministro Gilmar Mendes, citada por Kant. Esta tarefa não é para qualquer um. Não é fruto de um estalo, golpe de sorte – precisa ser ensinada e aprendida. A perseguição contínua de uma tarefa é em si, uma atitude claramente profissional.

Obra de jornalistas - O relatório do ministro Gilmar Mendes estende-se por 91 páginas sobre a profissão de jornalista e, mesmo sintetizado, jamais seria entendido pelos leitores de jornal, mesmo de um quality paper. Há nele uma ironia que roça à presunção. É um antijornalismo em estado primitivo. Ao comparar jornalistas aos chefes de cozinha o ministro Mendes tenta fazer blague. Nós jornalistas não gozamos as togas usadas nos tribunais, nem mesmo as ridículas perucas dos magistrados britânicos. Respeitamos as tradições, somos os primeiros a perceber quando se tornam obsoletas.

O ministro, porém, ignora que sem jornalismo e sem jornalistas os historiadores teriam que inventar fatos. Ou contentar-se com documentos áridos, insossos, muitas vezes truncados e às vezes manipulados para parecerem verdadeiros. A história moderna, a crônica dos últimos 400 anos, deve muito aos profissionais do jornalismo.

Uma hemeroteca, Excelência, é o panteão da humanidade. Obra construída majoritariamente por jornalistas. Este Observador não contrataria um advogado ou mesmo um jurista renomado para montar uma coleção de jornais. Nem mesmo para editá-los.

* Jornalista e Editor do Observatório da Imprensa

domingo, 28 de junho de 2009

Quem continuará o sonho?

A morte de Michael Jackson assemelha-se à de Elvis Presley não só pelas circunstâncias trágicas - as primeiras evidências apontam que Jackson, de 50 anos, fazia uso abusivo de analgésicos e, até hoje, médicos não compreendem como Presley conseguiu chegar aos 42 anos com tanta droga no corpo -, mas sobretudo em virtude do vazio deixado no mundo artístico. Sinceramente, é difícil recordar algum ídolo pop contemporâneo que tenha o peso de um dos dois. O único que lembro é de Mick Jagger e seu antológico Roling Stones. Quando digo isso remeto ao fascínio de todo um trabalho que provoca encanto, espanto, surpresa, fisson na crítica, curiosidade e expectativa pelo próximo passo do artista.

Falar de Michael Jackson traz à mente, até daquele menos letrado em cultura, o menininho do Jackson Five a entoar "Ben", que encarna à perfeição a década de 70, e, no começo dos anos 80, o lançamento estrondoso do brilhante álbum "Thriller", que inovou a música, a dança e o videoclip. De Elvis Presley impossível esquecer a perfeição do hit "Jalhoise Rock" ou "Prisioneiro do Rock" e, no filme homônimo, a coreografia do momento em que Elvis, acompanhado de um grupo de rapazes, interpreta a música-título a caráter, vestido de prisioneiro, no que é considerado o pai dos videoclips, ou as famosas turnês, realizadas após quase dez anos afastado dos palcos, na década de 70. Uma delas teve a primeira transmissão via satélite da história.

Pois bem. Na infertilidade do terreno artístico fica a pergunta: quem continuará o sonho? Certamente há algo muito errado com nosso tempo... .