Olha, o Brasil não enfrenta apenas uma profunda crise ética, não. O país passa também pelo dissabor de uma crise legal. Quando a discussão avança na circunscrição ética, tem-se no centro das atenções, no dizer do teórico da comunicação Eugênio Bucci, "um sistema de valores coletivamente aceitos, que norteia a vida em sociedade". Não há que se falar em coerção ou qualquer tipo de pressão. A ética enobrece a alma humana. Dela deriva para se exteriorizar rumo aos anseios comuns que pautam a vida em sociedade. Immanuel Kant discorre brilhantemente sobre o assunto no momento em que sugere a existência da subjetividade ética. Então, o debate em torno da ética dignifica e saneia o ambiente. Não é mera reflexão acerca do certo e errado. Para isso existem as leis, coercitivas por natureza. A ética transcende o óbvio, numa defesa insistente do bem de todos. Ainda que tal posição custe ao sujeito da ação ética enorme renúncia. Aliás, ele só será sujeito ético se não utilizar a ética como meio para alcançar um fim determinado. A ética é fim em si mesma. A pessoa é ética porque é ética e pronto.
O Brasil, ao contrário, charfuda-se na relativização dos conceitos de certo e errado e esbarra na legislação em si. Não que o direito careça de nobreza. Em absoluto. Trata-se de uma ciência essencial para que a sociabilidade seja possível, sobretudo a partir do pensamento de que o espaço de cada um termina quando começa o do outro. O que acontece na Terra de Santa Cruz hoje, entretanto, enlameia o arcabouço jurídico porque, às vezes baseado no próprio, transforma o certo no errado e vice-versa. Na grande maioria das vezes, o imbróglio toma forma nas práticas que se convencionou chamar de políticas, também num desrespeito ao significado do vocábulo grego politike, que remete ao zelo com a coisa pública. Daí que matar, roubar, formar quadrilha, usar mau o dinheiro público podem encontrar amparo jurífico, desde que o réu possua dinheiro e poder.
Diante da situação, a sociedade resolveu se mobilizar para aprovar uma lei que criminaliza a compra de voto, a 9840, e, agora, a tentativa de levar ao Congresso Nacional projeto de lei que impede a candidatura de políticos em débito com a justiça. Ora, são duas práticas que, a rigor, nem precisariam ser questionadas, de tão óbvias. Comprar voto é trapacear, enganar. Pessoas condenadas na justiça deveriam, antes de concorrerem a cargos eletivos, regularizar a pendência e provar inocência. Mas não. No Brasil urge lutar, esbravejar contra cidadãos (?) que só pensam em interesses particulares e que encaram a política como profissão.