A saída do professor Gabriel Chalita das fileiras do PSDB abre margem para reflexões interessantes. Fiel seguidor do médico Geraldo Alckmin, ex-governador de São Paulo que já concorreu à Presidência da República, Chalita é aclamado e respeitado no meio católico. Mantém programa semanal na TV Canção Nova, o Papo Aberto. É presença constante em eventos ligados à Renovação Carismática Católica. Algumas vezes levou Alckmin para a frente da telinha - na época o programa era chamado Quarta Viva - e cedeu a ele generoso espaço para explanar sobre suas qualidades de bom pai de família e político honrado. Uma dessas oportunidades, salvo engano, foi justamente no calor da corrida rumo ao Palácio do Planalto, em 2006. O destino de Chalita deve ser o PSB, partido do provável candidato a presidente Ciro Gomes que integra justamente a base de sustentação do Governo Federal. Quer dizer, de oposição Chalita passará a situação.
A imprensa, em polvorosa, especula sobre a movimentação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para colocar Chalita no palanque paulista da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, preferida do PT para disputar o mais alto cargo do país. Numa clara provocação ao governador de São Paulo José Serra, pré-candidato do PSDB à Presidência, a quem, aliás, Chalita acusa de preconceito em relação à sua pessoa. Para alguns, Chalita, de 40 anos, tem poder de fogo, já que foi o vereador mais votado da capital paulista nas últimas eleições, além de integrar a RCC, pródiga em eleger representantes às assembleias legislativas e ao Congresso Nacional.
Não deixa de ser paradoxal o ingresso de um adepto da Renovação Carismática Católica, conservadora por excelência, numa sigla de tendência esquerdista, tradicionalmente liberal quanto à moral. Na melhor análise, seria como misturar água e óleo. Senão vejamos. Há três correntes de pensamento na Igreja Católica: a tradicional, mais voltada ao culto e ao rito no interior dos templos; a conservadora, que exorciza a teoria marxista e defende a prática radical de vida evangélica - a RCC é um dos exemplos mais cabais -; e a progressista, mais politizada e nitidamente influenciada pelas ideias socialistas de Marx - dessa ala é que surgiram o Partido dos Trabalhadores e a Teologia da Libertação. Chalita engrossaria a corrente conservadora, a mesma do deputado estadual mineiro Eros Biondini, que também apresenta programa semanal na TV Canção Nova, o Mais Brasil.
Pois bem. Tudo isso só é possível graças a absoluta falta de respeito à decisão do Tribunal Superior Eleitoral, ratificada pelo Supremo Tribunal Federal, que definiu que o mandato pertence ao partido. Noutras palavras, vigora no Brasil a fidelidade partidária. No contexto, entretanto, algo de gravidade maior chama a atenção. No rastro dessa tentativa de se criar vínculo do político com a legenda ganha corpo a ideologia que, no Brasil, infelizmente, passa longe de se tornar realidade. Se ideologia existisse na Terra de Santa Cruz, o ingresso no PSB de Chalita, bacharel em Direito, mestre em Ciências Sociais e Doutor em Comunicação e Semiótica, não ocorreria. Mas como em política, sobretudo no Brasil, não há lógica... .
Após a violenta crise desencadeada pelos quase 500 atos secretos que levou à execração pública o presidente do Senado, José Sarney, o mundo político nacional agora busca ajuda sobrenatural. Representantes de religiões africanas tiveram permissão para lavar parte da rampa principal de acesso ao Congresso Nacional, em Brasília, em ato comemorativo ao Dia da Tolerância Religiosa. Com roupas brancas e turbantes, ao som de atabaques, cerca de 200 pessoas "purificaram", hoje, a passagem às casas legislativas que deveriam ser exemplos de cidadania para o país. Isso mesmo. Deveriam, mas não são.
Não resisti à tentação de transcrever artigo da coluna "Pensata", da Folha OnLine, em que o jornalista Kennedy Alencar faz uma espécie de "mea culpa" sobre a marolinha prevista pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, diante do vendaval surgido nos cinco continentes a propósito da crise econômica mundial, que estourou em setembro do ano passado. Vale a pena ler as palavras do repórter especial da Folha em Brasília, sobretudo quando ele menciona o governador paulista José Serra, provável candidato do PSDB à Presidência da Repúlica: